Mercado especula sobre coronavírus, mas especialistas recomendam cautela

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O rápido avanço do coronavírus na China e em outros países dentro e fora da Ásia trouxe preocupação para o mercado financeiro, com efeito sobre as commodities agrícolas, nesta segunda-feira (27/1). A soja, principal produto exportado pelo Brasil, foi uma das mais impactadas. O contrato com entrega para março fechou US$ 8,97 o bushel na bolsa de Chicago (EUA), queda de 0,5%. O dólar encerrou o dia a R$ 4,2092, alta de 0,6%.

Em meio a informações desencontradas e especulações sobre a origem dessa atual epidemia do vírus, não faltam dúvidas sobre os seus reais efeitos sobre o mercado agrícola. Analistas chamam a atenção para possíveis efeitos sobre o consumo chinês.


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“A partir do momento em que se tem uma epidemia com risco grave como essa, é impossível que as atividades econômicas sigam num ritmo normal”, explica o economista e professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan. “No caso chinês, isso tem um impacto forte para o agronegócio porque a China é muito dependente de compras externas”, observa.

Ana Luiza Lodi, analista da INTL FCStone, lembra que o país acabou de firmar um acordo comercial ambicioso com os Estados Unidos – e que já vinha despertando dúvidas sobre a possibilidade de ser efetivamente cumprido. “Uma economia mais impactada, que possa apresentar um crescimento mais fraco, afeta o potencial que a China tem de importar produtos não só dos Estados Unidos, mas do mundo em geral”, observa, ao apontar fatores que pressionaram o mercado para baixo.

A China suspendeu as comemorações de ano-novo, que segue o calendário lunar, e tem orientado sua população a evitar sair de casa. “Isso afeta a economia como um todo e um dos principais motores da economia é o consumo”, lembra a analista.

Cautela

Em contato com operadores chineses, Lygia Pimentel, da Agrifatto, conta que o principal temor tem sido de que os efeitos repitam o corrido em 2003, quando uma crise semelhante, também causada por um coronavírus, atingiu o país, difundindo mundialmente a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla em inglês). “Não chegou nesse ponto ainda, mas é um risco, então o pessoal fica esperto. Por terem vivido algo similar antes, que afetou muita gente, eles evitam sair de casa”, lembra a analista.

Lygia avalia que, caso o vírus continue se propagando e se confirme uma epidemia global, o primeiro setor a ser atingido será o varejo chinês, seguido do atacado com forte impacto sobre o mercado de proteína animal. “Acho o mercado de carnes pode ser mais afetado do que o de grãos, mas, por enquanto, temos que esperar o desenrolar da história”, avalia a analista da Agrifatto.

Já Leonardo Trevisan, da ESPM, vê nas experiências passadas da China, mais um motivo para acreditar no controle da propagação do vírus. “A SARS já mostrou que há critérios epidemiológicos de controle [do coronavírus]”, destaca.

Na opinião dele, há um reconhecimento internacional de que a China tem adotado uma postura mais transparente em relação ao atual surto quando comparado com o que ocorreu em 2003 – o que deve contribuir para controlar mais rapidamente a disseminação do vírus, apesar dos efeitos imediatos sobre o mercado. “Precisará de tempo até que o mercado, de alguma forma, processe essa volatilidade. Portanto, cada produtor precisa ter percepção da realidade e não acompanhar o efeito manada”, aponta o economista.

Em nota enviada aos clientes, a consultoria MD Commodities, com sede em Chicago e no Brasil, alertou para o “pânico especulativo” nos mercados agrícolas. “A MD vê este movimento como possivelmente exagerado. No entanto, o momento é de cautela máxima e compreensão de que o sensacionalismo causado pela rápida disseminação de informações, verificadas ou não, apenas adiciona mais um fator de total imprevisibilidade aos movimentos de curto prazo”, avalia Pedro H Dejneka, sócio da empresa, que aconselha evitar decisões baseadas em informações não confirmadas.