Filho transfere casamento para hospital para que pai internado participe de cerimônia

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Foto: Glauco Araújo/G1

A notícia da alta hospitalar é uma das maiores alegrias que um paciente pode receber enquanto está fazendo um tratamento médico. Para o engenheiro mecânico José Luiz Francesconi, 55 anos, sair do quarto do hospital tinha um motivo a mais: o casamento do filho neste sábado (6), em Santo André, no ABC Paulista.

Internado desde 18 de junho para o tratamento de leucemia, ele ficou impossibilitado pelos médicos de sair do hospital e poder presenciar o casamento civil do filho Vinicius Belisário Francesconi com a noiva Ana Caroline Soares do Nascimento.

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Comovidas com a tristeza do paciente, as enfermeiras que costumavam cuidar de seu José Luiz relataram para a chefia da enfermagem os constantes desabafos dele em não poder participar da cerimônia.

O casamento, então, foi liberado para ocorrer no próprio hospital. A cerimônia foi uma surpresa para o paciente.


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“Foi o maior presente que poderia ganhar. Por conta da minha situação, nem abraçar minha família eu estava abraçando, por causa da minha baixa imunidade, então, abraçar meu filho no casamento dele foi muito especial, muito importante. Vai até me ajudar a enfrentar esse novo desafio da doença Foi uma surpresa maravilhosa”, disse seu José Luiz.

Para fazer a surpresa, os familiares e a equipe do hospital disse que queriam fazer uma foto dele, pois ele é um paciente especial e querido. A família arrumou uma roupa especial para ele fazer o registro fotográfico às 13h deste sábado.

Todos os demais pacientes que estavam internados foram avisados. Os corredores ficaram lotados de pacientes, visitantes, enfermeiros, médicos e todos os funcionários que estavam de plantão ficaram ansiosos com o casamento.

Emoção

O primeiro registro de emoção foi quando a noiva apareceu no 2º andar do hospital, vestida de branco e com uma tiara com flores brancas. O cenário foi montado no átrio do hospital, um vão que dá vista aos demais andares da internação.

O segundo momento foi quando seu José Luiz saiu do quarto 311, no 3º andar, seguiu até o elevador em uma cadeira de rodas para “fazer a foto”. Quando percebeu o que iria acontecer de verdade, ele começou a chorar copiosamente.

A emoção era refletida no movimento de vai e vem do tecido da máscara cirúrgica que ele é obrigado a usar por conta da baixa imunidade, dada a respiração ofegante da emoção.

Amparado por Camila Martins, supervisora de enfermagem do Hospital Brasil/Rede Dor, que a todo instante verificava se ele estava se sentindo bem, seu José Luiz ficou ao lado da mulher, Nair, a quem deu uma bronca em tom de brincadeira: “Você mentiu para mim”. E ela respondeu aos risos: “Não menti, omiti”.

O terceiro momento de emoção foi o abraço de pai e filho, após a cerimônia comandada por um juiz de paz. Os dois, aos prantos de alegria, sussurraram palavras de carinho um ao outro. “Eu desejei muita felicidade para ele. Meu filho disse que me ama e eu disse que o amava também.”

“Isso nos conforta, você esquece por um momento que está passando por essas dificuldades, internações, tratamento, foi muito legal. Eu sempre comento com as enfermeira de mais contato de que eu estava rezando para conseguir sair do hospital antes do casamento. Isso me deixou muito triste, cada vez que eu lembrava, então vi isso aqui foi muito maravilhoso, é indescritível. É como se fosse o maior presente da minha vida”, disse seu José Luiz.

Feliz em poder ter participado do casamento do filho, o paciente disse: “A família é o maior tesouro da sua vida. Eu imagino o tamanho do esforço para realizar esse momento. A razão da nossa vida é a nossa família, quero que meu filho seja muito feliz”.

Foi esse espírito acolhedor que fez o hospital se mobilizar para realizar o casamento.

“A gente tem um movimento ‘o que importa para você’ desde 2018. E a gente sempre pergunta para o paciente o que importa para ele durante a internação. Foi quando descobrimos que ele estava um pouco triste por não poder ir ao casamento do filho. Então fizemos essa mobilização para trazer o casamento para perto dele, aqui no hospital”, disse Camila.

Para a médica Elaine Mazará, hematologista responsável pelo tratamento de José Luiz, a alegria proporcionada pelo casamento pode ajudar o paciente e superar a dificuldade da internação.

“Ele tem uma doença grave, que é uma leucemia aguda, diagnosticada há dois anos, alguns pacientes conseguem se curar, mas alguns são mais difíceis e precisam de um transplante de medula, que é o caso dele. Ele já fez um autotransplante, mas agora ele precisa de medula de um doador. O caso dele é grave e, como o filho dele está tentando casar há um ano, então, foi uma homenagem para ele, para os noivos e para a equipe do hospital. Ele ficou tanto tempo internado, tem alta e volta, que ele acaba sendo da família.”

Elaine estava contente pelo paciente e pela festa inusitada em ambiente de trabalho. “Casamento é primeira vez. Ele fica muito feliz por ter podido fazer. Nem eu sabia que seria desse jeito. Foi uma surpresa. Mas acho que isso traz um ânimo para ele, a felicidade sempre melhor nosso sistema imunológico.”

Atenta, ela permitiu que o pai do noivo pudesse apenas molhar os lábios na taça de champanhe e assim brindar a felicidade do filho. “Vou ficar apenas no brinde, não posso beber”, disse seu José Luiz.