Flip: humor e tragédia se misturam em mesa com portuguesa e brasileiro

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Quem ouvia as risadas do público durante a mesa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que reuniu a portuguesa Isabela Figueiredo e o brasileiro Juliano Garcia Pessanha, quase se esquecia que a literatura dos dois é profundamente marcada pelo sofrimento.
A autora de A Gorda e o escritor de Recusa do Não-Lugar contaram ser pessoas rasgadas por fraturas, mas divertiram o público do evento com uma conversa cheia de sintonia e histórias engraçadas, como a vez em que estavam jantando e Juliano teve câimbra.
“Me ofereci para fazer uma massagem no músculo dele”, disse Isabela, que brincou que o jeito que o autor trocava as pernas de posição mexia com qualquer mulher.
Experiência
Juliano Garcia Peçanha teve a infância marcada pelo suicídio da mãe e partiu dessa tragédia sua experiência com o não-lugar, enfrentado em seu último livro. A experiência deixou sua vida em uma “aterrizagem permanente”, em uma constante posição de “alguém devastado”.
“Minha escrita de si é de alguém que não tinha a si mesmo. Com uma impessoalidade”, disse o autor, que revelou um humor tímido que cativou a plateia.
“Quem é rasgado é sempre engraçado”, disse ele, acrescentando: “Sempre tem um gesto que não cabe”.
Memória
Isabela Figueiredo viveu a infância em Moçambique. Ela foi mandada pela família para Portugal depois que o país perdeu o controle sobre a colônia, já na década de 70. Os anos na África fizeram com que a autora testemunhasse a violência racista da colonização e episódios de revanchismo e vingança com o processo de independência.
“Tenho a memória de muitos atos violentos praticados pelos colonos e muitos atos violentos praticados depois pelos colonizados. Tem muita violência no meu passado. Escrevo com violência porque existe muita violência dentro de mim”.
A autora contou que nunca conseguiu enfrentar o racismo e a violência com que seu pai tratava os negros, e só pôde denunciar o preconceito depois de sua morte.
“Meu pai era o colonialismo. Meu pai era o racismo, e, ao mesmo tempo, eu não podia ir contra o meu pai. Eu não tinha poder”.
Relatos
Ao mesmo tempo, lembrou que seu pai pediu que ela transmitisse aos portugueses as violências que os brancos passaram a sofrer depois que a colonização acabou. Ao chegar na Europa, porém, não encontrou ressonância para esses relatos.
“Ao mesmo tempo em que digo que ele foi um racista, um colonialista, finalmente transmiti a mensagem que ele quis contar”.
Os relatos resultaram no livro Caderno de Memórias Colonial, que também foi lançado no Brasil. Em A Gorda, seu trabalho mais recente, a autora trata de uma protagonista insatisfeita com o próprio corpo, mas que não se limita a isso.
“O corpo é bom, não é uma vergonha, não é um tabu, não é um desgosto. Mesmo quando é diferente”, disse ela, que contou ser muito ligada a descrições físicas. “Tenho um fascínio enorme pelo corpo, por descrever o corpo. Gosto dessa visão microscópica das coisas”.
Juliano também afirmou que sua relação com a literatura é física e que inclusive ele prefere ler em voz alta para que as palavras ganhem forma física.
“[escrever] é um gesto físico. é pegar os átomos do corpo que estão machucados ou celebrados com alguma experiência e virar do avesso”.
*O repórter viajou a convite da EDP, empresa patrocinadora da Flip
Edição: Armando Cardoso
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