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sábado, 28 novembro, 2020
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Perdi meus pais para o coronavírus em um intervalo de 11 dias

Por REVISTA GLOMOUR

Nos últimos meses, a vida da médica Andressa Meneghel, 27 anos, mudou completamente. Residente em medicina da família e comunidade, ela contraiu o coronavírus, ficou internada e perdeu os pais para a doença. “Eu os tinha como um porto seguro. A minha mãe era a minha melhor amiga e o meu pai me levava todos os dias ao trabalho. A nossa vida era muito unida.” Em depoimento a Glamour, Andressa conta como é viver o luto deste momento.

“Quando o vírus chegou ao Brasil eu estava trabalhando normalmente na linha frente, em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), em São Paulo. Com o decreto de quarentena, isolei os meus pais e fiquei tomando todos os cuidados necessários. Eu morava com eles em Santo André, mas, por terem 66 anos e fazerem parte do grupo de risco, comecei a ficar em um hotel, indo para casa apenas no fim de semana.

No sábado do dia 18 de abril, fui pra casa e, no domingo, depois de almoçar com o meu noivo e os meus pais, comecei a apresentar vômito e febre. Fiz uma teleconsulta e, em seguida, o exame da Covid-19. Entrei em isolamento, mas o resultado positivo só veio um dia depois. Na terça, fui internada com falta de ar e 30% de comprometimento pulmonar. Depois, acabou evoluindo para 50%, mas não precisei ficar intubada. Fiz o tratamento com antibióticos e passei 9 dias no hospital.

No domingo seguinte, meu pai me ligou contando que estava em um hospital público de São Caetano, no ABC, também com Covid-19, mas com o quadro estável. Fiquei muito abalada, meu grande pavor era que os meus pais pegassem o vírus. Ainda naquele dia, piorei e precisei ser transferida de hospital. Meu pai, por sua vez, também foi levado a um hospital de campanha.

Eu tenho convênio por causa da residência, mas não tínhamos condições de pagar para os meus pais e, enquanto isso, a minha mãe estava sozinha casa. Na segunda-feira, soube que meu pai estava na UTI, entubado em estado grave. Naquele momento, perdi o chão e fiquei muito apavorada. Começamos então uma batalha pela vida dele, que estava com o pulmão muito debilitado.

Quando recebi alta, ainda testava positivo para o vírus e fui para um hotel continuar o isolamento. A minha mãe, até então, não tinha sintomas, mas começou a ter muito refluxo e não conseguia comer ou dormir direito. Fizemos uma teleconsulta com um gastro, mas, como ela estava muito abalada emocionalmente, o diagnóstico foi um quadro de depressão associado a gastrite.

Na consulta, o médico recomendou medicação e disse que ela poderia tomar em casa ou em dois hospitais da região que não tinham muitos casos da doença. Naquele momento, pedi a uma amiga enfermeira de ambulância que fosse ministrar os medicamentos, mas, chegando lá, ela encontrou a minha mãe muito mal. Me ligou contando que ela estava fraca e precisava ser levada. Minha mãe não queria, dizia que o meu pai e eu tínhamos ido ao hospital, mas não tínhamos voltado. Precisei ligar e pedir muito. Lembro de dizer: “Mãezinha, por favor, eu te amo muito. Vai dar tudo certo, você vai, toma o soro e volta”.

Já no hospital, ela foi levada à emergência e, consciente, contou ao médico sobre os casos de coronavírus na família. Ele então resolveu tratá-la inicialmente como suspeita e pediu uma tomografia. Entubou ela, fez o exame e, na volta, minha mãe teve uma parada cardíaca e ficou 3 minutos parada.

No resultado da tomo, o comprometimento pulmar era de 70% e não tivemos dúvidas sobre a Covid-19. Como o hospital era privado, pagamos mais de R$ 5 mil pelo atendimento inicial. Imediatamente, também pedimos transferência para o SUS, porque fomos informados que a diária da UTI custava R$ 22 mil e não tínhamos esse dinheiro. O hospital informou que não haviam vagas disponíveis em Santo André e eu comecei a mandar mensagem para todos que conhecia pedindo uma vaga no SUS. Quando, enfim, consegui, a médica dela entrou em contato dizendo que a minha mãe não tinha condições de ser transferida nem de uma maca para outra. Naquele momento, entendemos que era preciso dar um jeito já que a prioridade era salvar a vida dela.

A minha chefe de residência teve a ideia de fazer uma vaquinha para divulgar nas redes sociais e ajudar inicialmente com os gastos. Depois de 16 dias na UTI, meu pai apresentou uma melhora muito grande. Mas, no dia seguinte, meu telefone tocou e a médica me pediu para ir ao hospital porque o quadro havia piorado – e muito. Me disse que ele já tinha tido três paradas cardíacas. Num período de 10 minutos após essa ligação, ninguém mais me atendia.

Naquele momento, comecei a sentir que meu pai provavelmente tinha morrido, mas não queria acreditar. Clamava a Deus pedindo para que não me deixasse passar pela morte sozinha naquele hospital. Alguns minutos depois, a porta abriu e veio a notícia de que meu pai não tinha aguentado a quarta parada. Liguei para o meu irmão desesperada, não queria acreditar que ele tinha morrido, aos 66 anos, sem nenhuma doença. Meu pai, José Roberto de Souza, faleceu em 11 de maio e foi enterrado no dia seguinte, com caixão lacrado, sem velório e sem abraços de conforto no momento em que eu mais precisava. Foi uma cerimônia muito cruel, nem mesmo carregamos o caixão, e em 15 minutos meu pai estava enterrado. Minha familia não podia nem viver o luto ainda porque minha mãe estava na UTI e a gente precisava continuar lutando por ela.



Dayelle Ribeirohttps://www.cenariomt.com.br
Redatora do portal CenárioMT
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