Após 18 anos de casamento, que envolveu muitos tratamentos hormonais e até mesmo uma tentativa frustrada de fertilização in vitro, Viviane* e Cássio* finalmente realizaram, no início da pandemia da Covid-19 no Brasil, o sonho de uma vida inteira: se tornaram pais do pequeno Bruno*, um bebê entregue para adoção em Mato Grosso por meio do projeto Entrega Legal. “É só amor. Se eu pudesse resumir, diria que a adoção representa gratidão e amor. Acredito que o período que ficamos na lista de espera é de uma gravidez emocional, você precisa esperar a hora certa. O Bruno veio na hora certa, do jeito que eu pedi. Para mim, a adoção é a manifestação de Deus na nossa vida”, revela Viviane, que se tornou mamãe em março.

Viviane conta que o casal sempre quis ter filhos, inclusive que fez uma fertilização em 2013, que não deu certo. “Como não pude congelar embriões, foi mais dolorido ainda. Em razão do alto valor, só pude fazer uma fertilização. Era minha única tentativa e apostei tudo nela. Quando peguei o resultado negativo, senti que abriu um buraco. Tive até que ir ao psicólogo depois, porque você se sente inferior. Mas hoje vejo que tudo tem um propósito. Hoje tenho meu filho amado e tão esperado”, assinala.

Ela aguardou cinco anos na lista de pretendentes à adoção, em razão do perfil escolhido, pois ela queria uma criança até um ano e meio de idade. “Como não tive filhos biológicos, eu queria vivenciar toda a experiência de ser mãe de um bebê. E o Bruno é o filho que eu pedi para Deus. Quando ele chegou, em março, não tive dúvidas. Eu sonhei com ele antes, quando o trouxeram para mim, vi a cabecinha dele e já sabia que era o meu filho. Ali já comecei a chorar. É um sentimento de gratidão muito forte, você olha para a criança, vê Deus e agradece. Ele é um anjo na nossa vida, muito bonzinho e querido. Entendi que o filho não vem pela barriga, vem pela vontade de Deus.

Como a família não tinha enxoval para receber o bebê, Viviane e Cássio contaram com a ajuda de uma comadre, que doou diversos itens que eram de seu filho. “Ela chegou com o carro cheio de coisas, como berço, carrinho, roupas. As coisas de farmácia a gente foi comprar e agora estou montando o quartinho dele”, revela.

Já o pai de Bruno, que viaja bastante a trabalho, pôde ficar um mês com o bebê em casa antes de voltar à rotina. “Agora, para ele viajar é uma tortura, ele chora de saudade. Ele viaja, mas queria muito ficar aqui. Quando ele chega, ficam só os dois, um xodó com o pai. Não tem diferença de filho biológico e adotivo, o amor é muito grande. É ser mãe e pai por opção, pois você quer se tornar mãe e pai. É uma decisão já formada que ajuda muito. Você escolheu e só tem que dar amor. É um aprendizado mútuo, a gente aprende a cada minuto”, conta Viviane.

Junto com o marido, ela fez dois cursos preparatórios antes da adoção, que trouxeram o aprendizado necessário para encarar a adoção com maturidade. “Agora a família toda está babando… É o primeiro neto da mãe do meu marido e o segundo neto da minha mãe. Eu tenho um sobrinho de 18 anos, mas agora com o Bruno minha mãe está tendo a experiência diária de ser avó.”

Sobre o projeto Entrega Legal, que busca divulgar a previsão legal de entrega voluntária do filho para adoção, antes ou depois do nascimento, de forma segura e sigilosa, Viviane destaca que as mães que pretender disponibilizar os filhos para adoção não precisam ter medo de buscar o Judiciário. “Elas precisam fazer a coisa da maneira correta, pois ficam livres de responder por outro crime, como abandono. Existe uma fila de casais esperando para dar amor para essas crianças. A Entrega Legal é um ato de amor e de heroísmo. Quando o Bruno crescer, vou contar que a mãe dele fez um ato de amor e que ele precisa ser grato a ela.”

Todo o processo foi acompanhado pela juíza da Segunda Vara Cível da Comarca de Tangará da Serra, que abrange Família e Infância e Juventude, Leilamar Aparecida Rodrigues. Segundo a magistrada, a mulher que procura a o Judiciário para fazer a entrega do filho recebe orientação legal e também a atenção de uma equipe multidisciplinar, para avaliação psicológica. Dependendo da necessidade, ela pode ser encaminhada à rede pública de saúde e assistência social para atendimento especializado. O desejo de entregar o filho para adoção deve ser expresso em audiência com um juiz, que respeitará o prazo de 10 dias para possibilidade de desistência da intenção.

Em Mato Grosso, o projeto Entrega Legal é desenvolvido pela Corregedoria-Geral da Justiça. Saiba mais sobre a iniciativa AQUI. Interessados devem procurar a Vara da Infância da comarca onde residem para receber mais orientações.

 

Após três filhos ‘estrelinhas’, casal é surpreendido com adoção de irmãos em duas semanas: ‘Ação conjunta para o enxoval’


Amazonia 03 de Junho