ONG lança painel para coletar dados da covid-19 em favelas

A coleta de informações é feita por formulários com moradores

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covid-19 em favelas
© Fernando Frazão/Agência Brasil

 

A organização não governamental (ONG) Comunidades Catalisadoras (ComCat) lançou hoje (9) o Painel Unificador Covid-19 Nas Favelas do Rio de Janeiro com dados de 27 complexos ou favelas do município e da Região Metropolitana. Considerando somente as favelas, já constam do painel 120 comunidades. A iniciativa foi criada para coletar e divulgar dados sobre o contágio da doença provocada pelo novo coronavírus (covid-19) nas comunidades.

A diretora da organização não governamental (ONG) Comunidades Catalisadoras (ComCat), que idealizou o painel, Theresa Williamson, explicou, durante entrevista virtual, que o painel reúne diversos coletivos periféricos e organizações da sociedade civil e conta com relatos dos próprios moradores das favelas, que respondem a formulários sobre sintomas da doença, devido a ausência de dados públicos adequados e a falta de testes. Os dados são alterados constantemente.

No final da tarde desta quinta-feira (9), por exemplo, o painel apresentava 79 casos assintomáticos da covid-19, narrados por moradores das favelas, dos quais 31 eram de médio risco e 48 de alto risco, de acordo com a severidade dos sintomas, além de 4.233 casos confirmados da covid e 641 óbitos registrados por relatores comunitários. O sintoma de baixo risco não é refletido no painel. O maior número de casos confirmados, 1.275, foi apurado no Complexo da Maré, que lidera também em número de óbitos, 112.

Deficiência de dados

Theresa Williamson disse que há uma deficiência de dados nos painéis públicos especificamente sobre as favelas, embora dentro das comunidades existam trabalhos desenvolvidos com essa finalidade por mobilizadores de periferias, como a Rede da Maré.

De acordo com Theresa, o painel tem foco nas favelas porque elas são os territórios mais vulneráveis à pandemia. Os objetivos do painel incluem fortalecer a mobilização comunitária; rastrear a propagação da doença; usar os dados para pressionar e promover a transparência nas decisões públicas sobre a covid, principalmente como fazer o enfrentamento da doença; e combater as notícias falsas, ou fake news.

A geração de dados é independente e se baseia na coleta de informações dos moradores e de coletivos locais das favelas. A autodeclaração dos sintomas pelos habitantes de favelas pode ser feita no endereço na internet. À medida que os moradores adicionam dados, essas informações se tornam mais visíveis, apontando quais as áreas requerem maior atenção e esforços de campanha e onde há maior risco de contágio.

Theresa lembrou que enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) usa um sistema de três níveis para contar e relatar casos da covid-19 como suspeitos, prováveis e confirmados, com a confirmação da presença do vírus apenas após a utilização de resultados de testes de laboratório, o Brasil utiliza um sistema em duas etapas, contando apenas casos suspeitos e confirmados, e colocando somente casos confirmados nos painéis públicos.

Segundo a diretora da ComCat, a baixa testagem no país coloca a população, em especial os moradores de favelas, em grave risco devido à subnotificação e à falta de informações para combater a pandemia. “O painel vai gerar uma visão mais clara da pandemia nas favelas do Rio”, acredita.

A plataforma, segundo a diretora, segue as recomendações da OMS, relatando não só os casos prováveis e confirmados, mas também os suspeitos. “Na ausência de testagens, os casos suspeitos se tornam uma fonte de dados necessária para se determinar políticas públicas”.

Coletivos

O representante do coletivo Conexões Periféricas, de Rio das Pedras, zona oeste do Rio de Janeiro, Douglas Heliodoro, disse que o combate à subnotificação foi um dos motivos que o levaram a fazer parte do movimento, acrescentando que  a sensibilização de pessoas para que respondam aos questionários levará a ter um levantamento “o mais apurado possivel”.

Heliodoro lembrou que dos 500 testes realizados pela prefeitura do Rio de Janeiro em Rio das Pedras, cujos resultados foram divulgados no último dia 22 de junho, 125 pessoas testaram positivo. Com base nesse resultado, a prefeitura estimou que, em Rio das Pedras, haveria 39 mil casos positivos, com base no censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que indicava uma população naquela comunidade de 60 mil pessoas.

Heliodoro prevê, entretanto, que devido à elevada densidade demográfica, com muita aglutinação de moradias, a estimativa da Associação de Moradores local supera 100 mil pessoas residindo na região.

Dani Moura, da Rede da Maré, disse que os dados oficiais não contemplam a realidade do Complexo da Maré, formado por 16 favelas. Com o canal direto estabelecido com os moradores, Dani disse que só naquela área já tem 1.275 casos confirmados e suspeitos e 112 mortes, também entre óbitos suspeitos e confirmados, considerando os dados disponíveis esta semana.

Anna Sales, da associação Amigas, de Itaguaí, que reúne mulheres líderes de vários bairros e comunidades daquele município da Região Metropolitana do Rio, assegurou que o painel “é a demonstração de que os líderes comunitários são resistentes e estão correndo atrás desse gap [lacuna] que são as subnotificações”. Ela considera que o ideal seria a testagem da população, em especial das comunidades mais vulneráveis.

Boletim

O Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict) da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) apoia a iniciativa, por meio de seu Laboratório de Informação em Saúde (LIS). “A gente entende a importância da unificação de diversas iniciativas em um único painel. Facilita a análise da situação da covid-19 na realidade das favelas, melhorando a vigilância nesses territórios”, disse a pesquisadora Renata Gracie.

A Fiocruz está elaborando um boletim sócio-epidemiológico da covid nas favelas, que pretende criar indicadores de incidência e mortalidade da doença nesses territórios.

Na avaliação de Rafael Oliveira, fundador do coletivo Favela Vertical, de Gardênia Azul, ressaltou a importância do painel para ampliar a questão da pandemia nas favelas e para conseguir informações relevantes, por meio de dados informados pelos próprios moradores. Para Fabio Leon, do Fórum Grita Baixada, os números oficiais são, muitas vezes, utilizados com fins políticos e o trabalho independente, como o painel, é urgente e necessário.

O assistente da Defensoria Pública do Rio de Janeiro Salvino Oliveira disse que o órgão se coloca à disposição da iniciativa “para somar da forma que for possível”. Ele lembrou que na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, onde mora, há uma iniciativa comunitária de mapear e auxiliar os moradores na mitigação da propagação do coronavírus.

O painel pode ser acompanhado na página do Painel Unificador Covid-19.

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Amazonia 03 de Junho