Mãe de Eliza Samudio não quer série da Globo

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Sônia Moura e a filha Eliza Samudio com 15 anos de idade (Foto: Acervo Pessoal)

A notícia de que o crime do goleiro Bruno vai virar série da Globo chocou a mãe de Eliza Samudio. Sônia Moura, de 54 anos, revela que os idealizadores do projeto (como a diretora de Amora Mautner) não a procuraram para discutir o enredo que será baseado no livro ‘Indefensável – O Goleiro Bruno e a História da Morte de Eliza Samudio’, da editora Record. “Soube pela imprensa. Ninguém veio falar comigo”, diz em entrevista ao Yahoo.

Em 2010, o ex-jogador do Flamengo, que era capitão do time carioca na época, mandou matar a jovem de 25 anos que era mãe de seu filho. A dona de casa, que cria o neto Bruninho, 9 (fruto do relacionamento da filha com o jogador), no Mato Grosso do Sul, rejeita a ideia de ver a história da filha sendo contada na TV. “É de extrema crueldade e mau gosto. Não vou aceitar que a vida da minha filha seja exposta com base no que o Bruno falou, a história que o livro conta é mentirosa. A imagem da Eliza foi denegrida”, declara.

“As escolhas da vida dela eram problema dela. O Bruno difamou a Eliza tentando justificar algo que não tem justificativa, um crime bárbaro”, completa. A dona de casa está apreensiva, principalmente, pelo neto que está prestes a completar 10 anos de idade. “Eles esqueceram que a Eliza tem um filho. Eles não pensam que existe uma criança que pode ter o psicológico afetado? Vão dar assistência? Bruninho pode sofrer bullying amanhã ou depois. As pessoas não têm empatia pela dor e sofrimento do próximo”, dispara.

Indignada, a dona de casa conta que vai tentar impedir que a série vá para o ar. “Com a minha autorização não vão fazer. Se for necessário, entrarei na Justiça para barrar, vou fazer de tudo. Sou humilde e sei que não tenho poder aquisitivo para brigar de igual para igual com a Globo, mas vou tentar”, conta.

Outra preocupação de Sônia é ver o goleiro Bruno como o “bonzinho” da história. “Tem muita gente que defende ele. Dizem que minha filha é culpada por ter engravidado, culpada por ter sido morta. Meu neto não teve o direito de passar o primeiro ano de vida com a mãe. Isso as pessoas esquecem, mas não foi ela quem matou alguém”, diz.

A mãe de Eliza revela ainda que teria receio em relação à série mesmo se os responsáveis do projeto falassem com ela. “Teria que acompanhar passo a passo do desenvolvimento com um advogado para não deturparem a história da minha filha. Só assim seria algo a se pensar”, explica. “Eu não quero dinheiro, quero respeito pelo meu neto. Quero respeito pela minha filha como mulher, como mãe. Não quero dinheiro feito em cima da infelicidade”, garante.

“Querem fazer com o meu neto o mesmo que fizeram com Eliza?”

A avó de Bruninho chora ao falar sobre a criança que cria como filho junto com o marido. Sônia largou o trabalho como comerciante para se dedicar ao neto 24 horas por dia. Com a possibilidade da série sobre o crime, ela tem medo que o menino seja exposto na mídia. “Ninguém nunca se preocupou em saber sobre como meu neto vive. Ele é inteligente, ativo, feliz, leve. Não quero que ele deixe de ser assim. Querem fazer com o meu neto o mesmo que fizeram com Eliza?”, questiona a dona de casa que tenta ao máximo blindar Bruninho das notícias sobre o caso.

“A série vai influenciar na vida dele. Os coleguinhas comentam, vai estar nas redes sociais… As pessoas são cruéis e ele teria acesso a tudo isso. Não quero que ele sinta o que eu sinto”, diz. A internet na casa da família, inclusive, é controlada e o menino só pode navegar no modo infantil.

Em fevereiro, no dia de seu aniversário (10), o filho de Eliza Samudio e do goleiro Bruno vai ingressar no 5º ano do ensino fundamental em uma escola particular. Bom aluno e fã de matemática, ele ganhou uma bolsa de estudos por ter notas acima da média e já sonha em cursar educação física na faculdade. “Não fiz mais que a obrigação”, grita o menino no fundo da conversa por telefone.

“Olho pra ele e sinto uma dor porque tudo o que eu vivo com ele era para a mãe dele estar vivendo. Ela deveria estar se alegrando com as vitórias dele. Sei que não é culpa minha, mas gostaria que ela estivesse ao lado dele. Eliza seria uma excelente mãe”, diz Sônia chorando. “Os olhos dele lembram a mãe, o formato do rostinho, o jeito como ele é brincalhão, espontâneo. Tudo isso vem dela”, completa.

“Bruno não pode voltar a ser ídolo de criança”

Sônia assiste com indignação alguns clubes de futebol irem atrás de Bruno, que foi condenado a 20 anos e 9 meses de prisão e atualmente segue em regime semiaberto. “Ele pode voltar a trabalhar, mas não sendo goleiro, ídolo de criança. Qual exemplo ele vai dar para os jovens que estão começando no esporte? De que o crime compensa?”, opina. “A Justiça não consegue tirar dele onde está o corpo da minha filha, mas os benefícios do Bruno são mantidos. Está virando banalidade”.

A avó conta que o ex-atleta nunca procurou o filho nem por meio de um advogado. Sônia garante que deixará o neto conhecer o pai se a Justiça determinar. “O que eu penso a respeito do Bruno guardo pra mim. Mas deixar o Bruninho sozinho com ele jamais. Não tenho coragem. Ele atentou contra a vida de uma criança [de acordo com depoimentos na época do crime, Bruninho também deveria ter morrido com a mãe] e não vejo arrependimento nele. Se ele estivesse arrependido, diria o que fizeram com a minha filha, mas só pensa em voltar pro futebol”, dispara.

“É uma ferida que nunca vai cicatrizar”

Quase dez anos depois do assassinato de Eliza, Sônia diz que não há um dia sequer em que não pense na jovem. Ela mantém fotos da jovem pela casa para o neto saber quem foi a mãe dele. “A essência da Eliza nunca vai morrer. Minha filha está viva em mim”, fala aos prantos.

“É uma ferida que nunca vai cicatrizar, mas certas coisas que acontecem fazem a ferida sangrar mais que nos outros dias. Tento me manter forte e sadia porque o meu neto e meu filho [ela também é mãe de um rapaz de 21 anos] precisam demais de mim. E é difícil se manter forte o tempo inteiro. Muitas vezes eu preciso chorar para extravasar a dor. Faço isso no banheiro porque o Bruninho não gosta de me ver assim, ele fica preocupado. Aí sento debaixo do chuveiro e choro”, finaliza.

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Amazonia 03 de Junho