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terça-feira, 24 novembro, 2020
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Paralisação de testes da Coronavac foi técnica, afirma diretor da Anvisa

Dimas Covas: maiores efeitos de suspensão de testes foram políticos
Por CenárioMT com inf. Agência Senado

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) enviará à comissão do Congresso que fiscaliza as ações de combate à covid-19 toda a documentação sigilosa que levou o órgão a determinar a paralisação dos testes do Instituto Butantan relacionados à vacina Coronavac. Foi o que afirmou o diretor da agência, Antônio Barra Torres, aos integrantes do colegiado nesta sexta-feira (13). O presidente da Comissão, senador Confúcio Moura (MDB-RO), prontificou-se a fazer o pedido oficial rapidamente. De acordo com Torres, a documentação deixará claro, “de forma definitiva”, que a Anvisa tomou uma decisão 100% técnica, sem nenhuma ingerência política, ao determinar a paralisação na segunda-feira (9), revertida no dia seguinte.

— Nosso profissionalismo não pode ensejar que nem mais um cidadão brasileiro tenha um evento adverso grave, a partir do momento em que esta Agência toma conhecimento da ocorrência de um evento adverso grave e sem maior detalhamento, o que se deixará por muito claro tão logo o eminente presidente da comissão requeira para nós os documentos que já estão sendo prontificados, para que toda esta questão seja encerrada com a análise documental — disse.

Na terça-feira (10), foi esclarecido que o suposto “evento adverso grave” relacionado a um voluntário do Instituto Butantan foi um suicídio consumado, portanto, sem relação com os testes da vacina. Torres afirmou que o secretário de Saúde do estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn, deu declarações reforçando que o posicionamento da Anvisa foi técnico. Segundo o diretor, na segunda-feira a Anvisa não tinha outra opção.

— Não restava nenhuma outra conduta diante de informações incompletas — e os senhores vão constatar na documentação —, informações que passam longe do campo da certeza, outra atitude a não ser imediatamente parar o processo, sob risco de que outro testador fosse acometido do mesmo problema. Recairia sobre esses “decisores”, sobre este corpo técnico, a culpa por qualquer outro evento adverso grave que poderia ocorrer ao cabo de horas. Então a atitude foi tomada no momento em que deveria ter sido tomada pelo corpo técnico interno da agência. É muito importante frisar isso — disse, finalizando que os testes foram rapidamente retomados assim que a Anvisa obteve todas as informações.

Butantan

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, lembrou que ainda na noite da segunda-feira houve uma “manifestação clara” do centro de pesquisa de que o “evento adverso grave” não tinha nenhuma relação com a vacina. Segundo ele, a informação era relevante e deveria ter sido considerada pela Anvisa. Ainda assim, Covas reconheceu que a agência possa ter tido dúvidas. Nestes casos, no entanto, havia “a disponibilidade integral de todos os participantes de esclarecer qualquer dúvida”.

— Não estou colocando aqui se deveriam ter sido ou não interrompidos os testes. Acho que até faz parte dos estudos clínicos interrupções temporárias na ocorrência de dúvida. O que mencionei foi o fato de que a interrupção foi anunciada ao Butantan pela imprensa. E essa não é a melhor forma de fazer. Ou até que se fizesse, mas que se anunciasse isso antes ao Butantan para que não fôssemos pegos desprevenidos. Acabou-se criando uma situação até desnecessária, um conflito desnecessário — reclamou.

Na resposta, Torres disse que o Butantan foi oficiado na noite de segunda-feira sobre a paralisação dos testes, 40 minutos antes de a decisão ser publicada. Mesmo assim, Covas manteve a queixa sobre a forma como o Butantan foi informado da suspensão.

— Às 21h04 foi postado na caixa postal do estudo um ofício no sistema da Anvisa. Só que eu pergunto: quem é que vai acessar a caixa postal do estudo às 21h04? Obviamente isso só seria acessado na manhã do dia seguinte, não existe um funcionário de plantão para acessar essa caixa de estudo. Então, houve formalmente? Sim, houve formalmente a postagem. Obviamente esse ofício só seria recebido no outro dia de manhã — reclamou.

Segundo Covas, no entanto, a interrupção não chegou a prejudicar os testes,  que foram retomados e prosseguem normalmente. 

— Os estudos foram retomados e agora prosseguem. Essa interrupção não teve nenhum efeito prático. Os efeitos maiores foram mesmo políticos e pela forma e o momento em que ocorreram — explicou. 

Imunidade de rebanho

Em resposta a um questionamento de Confúcio, Covas esclareceu que o Brasil precisará de pelo menos 360 milhões de doses da vacina para atingir a imunidade de rebanho.

— Os grupos prioritários para vacinação são aqueles submetidos, num primeiro momento, a maior risco, que têm risco maior de desenvolver a doença em sua forma mais grave. São os profissionais de saúde e as pessoas idosas. Isso deve girar em torno de 30 milhões de pessoas. Considerando que as vacinas que estão aí são de duas doses, estamos falando num primeiro momento da necessidade de 60 milhões de doses. Para se chegar à imunidade de rebanho, precisamos vacinar pelo menos 80% da população: 180 milhões de pessoas. Então, são 360 milhões de doses. Obviamente será necessário mais de uma vacina, mais de um produtor, porque nem todos terão condições de fornecer 360 milhões de vacinas rapidamente — alertou Covas, acrescentando que o Butantan deve fornecer 100 milhões de doses da Coronavac até maio.

Covas disse temer que a politização em torno da Coronavac dê ainda mais força aos movimentos antivacina que existem no Brasil.

— Obviamente não é positivo. Há implicações na compreensão da importância da vacina. Estamos vivendo um problema muito grave de vacinação. Termina agora a vacinação da poliomelite e do sarampo, com a menor adesão dos últimos anos. Em torno de 40%, quando o esperado era acima de 85% — lamentou.

O senador Esperidião Amin (PP-SC) também lembrou que a influência dos movimentos antivacina tem aumentado em Santa Catarina. Um grande contraste com o que havia no início dos anos 1980, quando o estado foi o primeiro a universalizar a vacinação contra a pólio. Mas, na atual campanha, o índice foi de apenas 50%. Torres chamou a atenção para o problema e fez um apelo para a população a se vacinar.

— Espero que a população forme seu convencimento da importância de se vacinar, e não só contra a covid-19. Há índices preocupantes na adesão da vacinação antipólio. É importante vacinar, não devemos colocar nenhuma dúvida. O trabalho é feito por instituições sérias, centenárias. Então, população, venha se vacinar, no caso da covid-19, assim que possível.

Críticas

Para a senadora Zenaide Maia (Pros-RN), o principal responsável por essa recente polêmica sobre a Coronavac foi o presidente Jair Bolsonaro, ao “comemorar a paralisação das pesquisas, algo inacreditável”. Para Tasso Jereissati (PSDB-CE), a Anvisa foi precipitada ao determinar a paralisação dos testes na segunda-feira, e isso arranhou a imagem da própria instituição. O senador ainda criticou Torres por ter participado recentemente, sem usar máscara, de um evento público com Bolsonaro em que houve aglomeração de pessoas.

Já Randolfe Rodrigues (Rede-AP) criticou a indicação do tenente-coronel Luiz Kormann para a diretoria da Anvisa, feita por Bolsonaro. O senador disse esperar que Kormann não seja aprovado no Senado.

— Além de não ter experiência em saúde, o que me preocupa ainda mais são as manifestações públicas de Kormann. Fica fazendo postagens ressaltando absurdos idiotas que o empresário Luciano Hang fica reproduzindo em relação à vacina e à pandemia. Kormann disse, no início do ano, de forma cruel, que não havia pessoas sendo sepultadas nas sepulturas de Manaus, quando Manaus vivia, em abril e maio, a maior tragédia de sua história, com centenas de mortos pela pandemia. Compartilhou mensagens atacando o Instituto Butantan. No que depender do meu voto, e acho que no que depender do voto também dos demais colegas, não é possível avalizarmos a indicação para a Anvisa de alguém que é contra a ciência — disse.



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