26.9 C
Lucas do Rio Verde
domingo, 20 junho, 2021
InícioARTIGOSA hanseníase não deve ser esquecida em meio à pandemia de COVID-19

A hanseníase não deve ser esquecida em meio à pandemia de COVID-19

Por Por Yohei Sasakawa*

A 74ª Assembleia Mundial de Saúde (AMS) está acontecendo de 24 de maio a 1º de junho e é provável que o encontro deste ano seja dominado pelo tema da COVID-19. Mas aqui eu gostaria de falar sobre uma doença diferente – a hanseníase – e sobre uma resolução que foi adotada na AMS há exatamente 30 anos.

Essa resolução convocava a eliminação da hanseníase como um problema de saúde pública em nível global até o ano 2000, sendo a eliminação definida como uma taxa de prevalência de menos de 1 caso por 10.000 habitantes. Foi uma resolução histórica para a época.


--Continua depois da publicidade--

A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo bacilo Mycobacterium leprae. Afeta principalmente a pele e os nervos periféricos e é considerada uma das doenças mais antigas da história da humanidade.

Foto crédito: Divulgação Iniciativa Sasakawa contra a Hanseníase

Hoje existe um tratamento eficaz na forma de poliquimioterapia (PQT) e, com detecção e tratamento precoces, a doença é completamente curável. Mas, se o tratamento for adiado, a hanseníase pode causar danos a pele, nervos, rosto, mãos e pés, e levar a incapacidades físicas permanentes. Junto com medos arraigados e percepções errôneas sobre a doença, isso tem submetido as pessoas afetadas pela hanseníase, bem como seus familiares, à severa discriminação, que continua até hoje.

Infelizmente, em meio à pandemia do novo coronavírus, podemos ver paralelos entre a discriminação e a hostilidade em relação aos pacientes com COVID-19, suas famílias e os profissionais de saúde, que foram relatadas em diferentes partes do mundo, e as atitudes da sociedade em relação à hanseníase.


--Continua depois da publicidade--

Seguindo a resolução da AMS de 1991, a eliminação da hanseníase como um problema de saúde pública foi alcançada com sucesso em nível global no final do ano 2000. Infelizmente, isso não significa que a hanseníase tenha desaparecido. A cada ano, cerca de 200.000 novos casos de hanseníase são notificados à OMS, com o Brasil respondendo por mais de 27.800 casos em 2019, o segundo maior número de casos no mundo.

Ainda existem áreas endêmicas e focos dispersos de hanseníase em muitos países, e cerca de 3 a 4 milhões de pessoas vivem com deficiências ou deformidades físicas visíveis devido à doença. Enquanto isso, a persistência do estigma e da discriminação pode impedir as pessoas de procurar tratamento.

Desde que me tornei Embaixador da Boa Vontade da OMS para a Eliminação da Hanseníase, em 2001, visitei cerca de 120 países, incluindo o Brasil, e observei as situações locais com os meus próprios olhos. Isso me levou a pensar na hanseníase em termos de uma motocicleta: a roda dianteira simboliza a cura da doença e a roda traseira representa a eliminação da discriminação. A menos que as duas rodas girem juntas, não alcançaremos nosso objetivo final de zero hanseníase no mundo.

No que diz respeito à roda dianteira, a OMS publicou recentemente sua nova Estratégia Global da Hanseníase 2021-2030, que inclui as ambiciosas metas de alcançarmos a marca de zero pacientes com hanseníase em 120 países, além de uma redução de 70% em novos casos detectados globalmente até 2030. Para atingir essas metas, será necessário que haja compromissos e apoio financeiro dos governos; isso não é algo que a OMS possa realizar por conta própria.

Com relação à roda traseira, tenho trabalhado muito para que a hanseníase seja reconhecida internacionalmente como uma questão de direitos humanos desde o início dos anos 2000, quando entrei pela primeira vez no Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Um dos resultados foi a resolução sobre a eliminação da discriminação contra as pessoas afetadas pela hanseníase e seus familiares, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 2010. Mas a medida real do sucesso será quando os princípios e diretrizes que acompanham a resolução forem totalmente implementados.   

Ao longo do último meio século, a dedicação de muitas pessoas nos trouxe um passo mais perto de um mundo sem hanseníase. No Brasil, o governo está trabalhando com afinco para combater a doença e, no setor privado, ONGs como o Morhan (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase) têm um papel importante a desempenhar. Mas nosso trabalho ainda não terminou e os desafios permanecem.

Especialmente agora, durante a pandemia de COVID-19, é importante não perdermos a hanseníase de vista e continuarmos a construção sobre o progresso que já fizemos. Lembrando da decisão de 30 anos atrás que uniu os países na luta contra a hanseníase, vamos redobrar nossos esforços para vencer uma doença que tem sido um inimigo comum da humanidade por milênios.


Por Yohei Sasakawa – Embaixador da Boa Vontade da OMS para a Eliminação da Hanseníase, Embaixador da Boa Vontade do Governo Japonês para os Direitos Humanos das Pessoas Afetadas pela Hanseníase, Presidente da Fundação Nippon

Artigoshttps://www.cenariomt.com.br/artigo/
O CenárioMT está sempre aberto a profissionais que desejam dividir seu conhecimento com os leitores por meio da divulgação do seu trabalho em um veículo com credibilidade e conteúdo relevante. Pensando nisso, o CenárioMT estreou um espaços exclusivo para opiniões. Envie seu artigo agora mesmo para o e-mail [email protected]
- Publicidade -

Últimas no CenárioMT

Lucas do Rio Verde

SUSTO
Caminhonete com assessores de senador capota em Mato Grosso
junho 20, 2021
IMPORTUNAÇÃO SEXUAL
Passageiro de Lucas do Rio Verde ‘passa mão’ em idosa durante viagem de ônibus
junho 20, 2021