‘Ela vai entrar aqui para morrer, não tenho o que fazer’, diz médica ao receber paciente em unidade superlotada

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Foto: Cedida

A família de Iraci Fonseca, de 84 anos, tentava desde às 6h desta quarta-feira (3) uma vaga em um leito para a idosa, que está com suspeita de Covid-19 em São Gonçalo do Amarante, na Grande Natal. Na manhã desta quarta, ao chegar no Hospital Maternidade Belarmina Monte, a equipe médica teria se recusado a receber a paciente, segundo a filha de Iraci.

“Eu não tenho onde colocar, leve para o Giselda, leve para uma UPA. O que é que eu vou fazer pelo amor de Deus? A senhora quer subir para ver? Ela vai entrar aqui para morrer. Eu não tenho o que fazer. Eu não tenho aonde bote. Eu não tenho. A senhora quer subir pra ver? Vamos comigo”, disse uma médica da unidade ao receber a paciente, alegando a superlotação do hospital.

Foram os filhos de dona Iraci que a levaram para o hospital. No vídeo gravado pelos parentes, os socorristas do Samu também tentam argumentar com a médica para que a idosa seja recebida pela equipe do hospital. “A gente se sentiu desprezado, a situação já era difícil e ficou pior. Essa médica veio com essa grosseria toda. Aquelas palavram doeram muito”, conta Luciana Fonseca, filha de Dona Iraci.

Dois dias antes, Dona Iraci se sentiu mal e foi levada ao mesmo hospital. Ela recebeu o diagnóstico de pneumonia, foi medicada e encaminhada para repousar em casa. Nesta quarta (3), ela piorou e apresentou febre alta, cansaço, falta de ar e dores no corpo. Foi quando Luciana Fonseca e Francisco Flaviano retornaram para a unidade com a mãe.

Os filhos de Dona Iraci e os socorristas já tinham passado pela cidade de Macaíba, também na Região Metropolitana de Natal, para a troca de ambulância. Devido ao agravamento do quadro da mulher, ela precisou ser colocada em um veículo com UTI móvel da Samu.

Depois da negativa da médica, Luciana diz que chegou a acionar a polícia para fazer com que a mãe fosse recebida. “A gente disse que ia chamar a polícia e a imprensa por que isso não tem condições. Foi quando eles decidiram receber a minha mãe, que foi finalmente internada. Depois de muita pressão a gente conseguiu”, diz.

Após cinco horas de peregrinação para encontrar atendimento, Iraci foi recebida e está internada na enfermaria do hospital esperando uma vaga de leito de UTI, na ala destinada aos pacientes com Covid-19, mesmo sem a confirmação de que está com a doença. Ela fará o teste e o resultado deverá sair em cerca de cinco dias.

A prefeitura de São Gonçalo do Amarante informou que está com 12 pacientes internados, incluindo dois entubados para estabilização e aguarda regulação da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap).

“A capacidade está zero. Diariamente estão lotados e atendendo além dos leitos. O município abriu um Centro Municipal de Pediatria, na terça-feira para direcionar os atendimentos às crianças para a nova unidade e desafogar o hospital. Além disso foram contratados mais 25 médicos para as UBS, na atenção básica, para que o paciente seja atendido e acompanhado na comunidade e não vá para o hospital e mais 3 médicos para plantão de 24h no hospital Belarmina”, disse a prefeitura em nota.

De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pela Sesap na terça-feira (2), o Rio Grande do Norte registrava 8.233 casos confirmados e 341 mortes causadas pelo novo coronavírus. Em São Gonçalo do Amarante, cidade de Dona Iraci, 315 casos foram confirmados e 20 pessoas morreram com a Covid-19.


Amazonia 03 de Junho