Obesidade infantil: quarentena não é convite ao sedentarismo

0
Foto: Pexels

Neste Dia Mundial da Conscientização contra a Obesidade Mórbida Infantil (3 de junho), chamamos a atenção para a incidência da doença que, segundo a Organização Mundial da Saúde, aumentou dez vezes entre as crianças e adolescentes no mundo nas últimas quatro décadas. Nos Estados Unidos, foi publicado no dia 29 de maio um estudo levado à frente por pesquisadores do National Cancer Institute segundo o qual mais de um quarto das calorias consumidas por crianças e jovens de 2 a 18 anos no país são as chamadas calorias vazias, sem nutrientes importantes, como açúcares refinados. Os dados brasileiros também evidenciam a importância da atenção ao tema. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil, uma em cada três crianças entre cinco e nove anos está acima do peso. De acordo com o Ministério da Saúde, nessa faixa etária, 12,9% são obesos. Já as notificações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional de 2019, revelam que 16,33% dos brasileiros entre cinco e dez anos estão com sobrepeso, 9,38% são obesos e 5,22% apresentam obesidade grave. Entre os adolescentes, 18% têm sobrepeso, 9,53% são obesos e e 3,98% apresentam obesidade grave. E o confinamento em casa, durante a quarentena por causa da pandemia de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (SARS-COV-2) tem potencial para aumentar ainda mais o problema, já que as crianças estão com pouco espaço para se movimentar e afastadas de suas atividades físicas habituais.

Mas não precisa ser assim. A mudança na rotina pode implicar em uma redução das atividades físicas no dia a dia dos pequenos. Diante do desafio de manter os filhos ativos fisicamente, evitando, por exemplo, o uso excessivo de eletrônicos como videogame, televisão, celular e tablets, e de fazer escolhas alimentares mais saudáveis no isolamento, esse momento de reclusão oferece oportunidades aos pais e às crianças. É o que sugere a médica endocrinologista Lorena Lima Amato, especialista pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e endocrinopediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Ela alerta que crianças obesas, além de terem mais risco de se tornar adolescentes e adultos com excesso de peso, apresentam chances de desenvolver complicações como diabetes, esteatose hepática e problemas cardiovasculares ainda na infância. Mas as famílias podem tirar proveito das mudanças impostas pela quarentena e o fato de muitos pais estarem trabalhando de casa, em modelo de home office, para adotarem hábitos mais saudáveis.

– Vejo a quarentena como oportunidade. O tempo que os pais estariam no trânsito pode ser usado para atividades físicas. As pessoas que querem perder peso também reclamam da questão social, que não conseguem ficar sem comer nessas ocasiões. Mas tudo o que tem na sua casa é escolha sua. Por mais ansiedade e estresse que o isolamento possa causar, não há os eventos que são tentadores (como festas de aniversário e reuniões sociais). Vejo como uma oportunidade de melhora, de ter novos hábitos, incluindo o contato familiar – observa a médica.

Atividade física

Embora em curto prazo o ganho de peso esteja associado a escolhas alimentares, Amato reforça que as crianças precisam se manter ativas nesse período de confinamento. Para reduzir o sedentarismo, melhorando a saúde e prevenindo doenças como a obesidade infantil, a OMS recomenda que crianças de um a dois anos tenham ao menos 180 minutos diários de atividades físicas variadas e de qualquer intensidade. Para aquelas entre três e quatro anos, o tempo recomendado é o mesmo. Porém, nessa faixa etária, é necessário dedicar ao menos 60 minutos para atividades de intensidade moderada a elevada. Independente da idade, a orientação da OMS é distribuir esses minutos ativos ao longo do dia e evitar que as crianças fiquem paradas ou sentadas por mais de uma hora seguida. Além disso, quanto mais elas se mexerem, superando inclusive o tempo mínimo recomendado, melhor.

A endocrinologista reconhece que, durante a quarentena, pode ser um desafio realizar esse volume de atividades físicas. No entanto, Amato comenta que os responsáveis pela criança não precisam promover apenas exercícios físicos. As brincadeiras também contam para manter a garotada ativa. Brincar evita inclusive que passem muito tempo sentadas diante de telas como celular e tablets, por exemplo. Doutora pela Universidade de São Paulo (USP), a médica explica que não é preciso proibir o uso desses equipamentos por meninos e meninas a partir de dois anos. Em alguns momentos durante a quarentena, que é uma situação muito peculiar, os pais podem até ser mais permissivos. Não é preciso que tenham um sentimento de culpa por permitirem que os filhos usem os eletrônicos por um tempo um pouco maior do que antes do isolamento. Contudo, devem buscar minimizar ao máximo esse uso. Para tanto, Amato recomenda programar atividades diversas ao longo do dia.

– Impedir que tenham acesso a tablet e celular é praticamente impossível, mas é possível minimizar. Esse tempo de tela pode causar complicações, como afetar o sono e a produção de melatonina, além de deixar a criança mais parada. Elas precisam de três horas de atividades ativas. Não precisa ser necessariamente atividade física, mas também brincadeiras. A atividade para a criança tem que ser prazerosa e lúdica. É preciso que seja divertida, para ela que pegue gosto – completa a endocrinologista.

13 dicas para um dia mais ativo

Para incentivar as crianças a se movimentarem mais durante a quarentena, o conselheiro do Conselho Federal de Educação Física (Confef) Eduardo Netto alerta que os pais devem servir de exemplo para os filhos. Não adianta, por exemplo, dizer que eles não podem assistir à televisão, mas passar muito tempo diante da tela.

– Sempre falo que se os pais têm um lazer inativo, o filho também terá. Se o seu programa de domingo é comer em uma lanchonete e depois ir ao cinema, ele também fará isso. Mas se escolhe, por exemplo, andar de bicicleta, o filho se espelhará no pai para fazer mais atividades. O lazer dele também será um lazer ativo – argumenta o profissional de Educação Física, mestre em Motricidade Humana e pós-graduado em Fisiologia do Exercício, lembrando que entre essa geração de nativos digitais, o fato de passarem muito tempo diante de telas jogando ou com acesso à internet contribui para que fiquem horas sentados e comendo, favorecendo muito o ganho de peso.

Para Netto, o sedentarismo é um grande mal dessa década. Embora as pessoas busquem atividades físicas para emagrecer ou manter o peso sob controle, abandonar o comportamento sedentário ao longo do dia é essencial obterem resultados. No caso das crianças, que no momento atual estão em casa, sem se deslocar para a escola, entre outras tarefas que faziam parte do seu dia a dia, é preciso incluir atividades que garantirão um estilo de vida ativo. Segundo o profissional de Educação Física, os pequenos devem ter uma rotina que tenha movimento. Mas não adianta colocar a criança para pedalar em uma bicicleta ergométrica, por exemplo. O dia tem que ter brincadeira, jogo e, portanto, diversão.

– A criança não pode não ter tempo para fazer atividade física. Claro, que, nesse momento de quarentena, é mais limitado. Mas fundamental. É interessante envolver a maior quantidade possível de pessoas da casa. Levante, coloque uma música e dance. Ou escolha um jogo que tenha algum movimento ou interação. Brinque de pular corda ou de passar por cima ou por baixo dela. Em tom de brincadeira, seu filho terá mais mobilidade. Isso gera mais diversão e entretenimento. Para os pais, também é uma oportunidade de dar uma desestressada – sugere o profissional de Educação Física, acrescentando que essas atividades ajudarão a desviar a atenção da criança dos eletrônicos e que, se a experiência for boa, no dia seguinte, a meninada com certeza pedirá para repetir as brincadeiras.

Com o apoio da médica endocrinologista e do profissional de Educação Física, o EU Atleta lista algumas ideias que ajudarão os pais a manterem os filhos ativos durante o período de isolamento. Além disso, Netto destaca alguns exemplos de brincadeiras e os seus benefícios para os pequenos.

  1. Estabeleça uma rotina para as crianças que inclua atividades físicas e restrinja o uso de eletrônicos como celular, tablet e até televisão. Assim como precisam de horário para comer, estudar e escovar os dentes, elas precisam de momentos para se mexerem;
  2. Vista a criança com uma roupa confortável e adequada para a atividade a ser realizada. Além disso;
  3. Retire do ambiente tudo o que possa gerar distração na hora da atividade física;
  4. Faça atividades com o seu filho. Essa é uma oportunidade para estreitar os laços afetivos num momento de prazer e alegria para os pequenos e para você;
  5. Se possível, envolva todos da casa na brincadeira. Vale até incluir, por exemplo, os primos que estão distantes. Com o apoio de aplicativos de videoconferência, junte a criançada para se movimentar. É possível até fazer competições que tornarão a brincadeira ainda mais divertida;
  6. Caso haja espaço na sua casa, coloque as crianças para correr, andar de patins e até pedalar;
  7. Já em lares menores, as opções podem ser pular corda, esconde-esconde, caça ao tesouro, dança da cadeira e até bolinha de gude. Há ainda a brincadeira vivo ou morto, em que os participantes se abaixam e levantam realizando um bom exercício;
  8. Solte a criatividade! E aproveite para ensinar aos seus filhos as brincadeiras da sua infância;
  9. De vez em quando, arrume espaço no ambiente, coloque uma música e dance com as crianças. Essa será uma experiência divertida para toda a família;
  10. Ao realizar os seus exercícios em casa, envolva também as crianças. Elas não precisam reproduzi-los exatamente, claro. Até porque esse não é o objetivo. Na tentativa de imitarem você, eles também estarão em movimento. Sem contar que a malhação pode ficar muito divertida com essa companhia especial;
  11. Tire proveito da tecnologia para se inspirar e pesquisar na internet ideias de atividades para realizar com os pequenos;
  12. Dependendo do quadro da Covid-19 em sua cidade e das orientações das autoridades e gestores de saúde locais, pondere sobre a possibilidade de caminhar na rua com o seu filho. Caso seja possível, dar uma volta no quarteirão pode ajudar a entreter crianças menores. Não se esqueça de usar máscaras;
  13. Promova ainda atividades que, mesmo realizadas sentadas, proporcionam outros estímulos para as crianças. É o caso de práticas como leitura e desenho, além de brinquedos como massinha e blocos de montar. Sim, a criança ficará um tempo sentada, mas não se trata de um entretenimento passivo, uma vez que podem estimular a habilidades como motricidade e criatividade. Por isso, são uma boa opção para entreter os filhos e não podem ficar de fora do dia deles.

Outros exemplos de brincadeiras e seus benefícios:

  • Telefone sem fio

Sobre: incluindo ao menos três participantes, que podem ser irmãos e os pais, faça essa clássica brincadeira em que a primeira pessoa passa uma informação para a segunda e assim sucessivamente até chegar ao último participante, que deve revelar o que foi dito. Para deixar a atividade mais desafiadora e dinâmica, mude a regra que tal se a última pessoa, em vez de falar, fizer mímica ou desenhar em um papel?

Indicação: crianças a partir de 4 anos;

O que trabalha: concentração, memória e oralidade.

  • Andar em cima do jornal

Sobre: cada participante deve ter duas folhas de jornal. Para realizar a brincadeira, a pessoa fica sobre uma folha e segura a outra. Sempre que for dar um passo à frente, é preciso colocar aquela que está nas mãos e recolher a que ficou para trás para poder seguir se movendo até o local estabelecido como ponto de chegada;

Indicação: crianças a partir de 5 anos;

O que trabalha: noções espacial e corporal, equilíbrio e coordenação motora.

  • Gincana da roupa

Sobre: para essa competição, é preciso ter ao menos dois participantes. Quem tem mais de um filho pode envolver todos eles na brincadeira, mas se não for o caso, os pais podem entrar no jogo. Cada participante deve vestir ao menos cinco peças de roupas umas sobre as outras. A brincadeira consiste em retirá-las uma de cada vez. Ganha quem for mais rápido;

Indicação: crianças a partir de 5 anos;

O que trabalha: noção corporal, agilidade e coordenação motora.


Amazonia 03 de Junho