Famílias de mortos com suspeita de coronavírus falam em ‘desprezo’ com demora em exames

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Foto: Arquivo pessoal

Familiares de pacientes mortos com suspeita do novo coronavírus em cidades da Baixada Santista, no litoral de São Paulo, aguardam, preocupados, há pelo menos 12 dias os resultados dos exames que comprovariam ou descartariam a doença. Os exames coletados foram enviados ao Instituto Adolfo Lutz (IAL), laboratório de referência estadual.

Santos investiga, até a manhã deste domingo (29), sete mortes suspeitas do novo coronavírus. Entre elas, está a de Yasuo Nakamura, de 77 anos e morador de Santos, que estava internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital Emílio Ribas, no Guarujá. Paulo Nakano, neto do idoso, conta que a família está aflita à espera da confirmação da doença.

“Minha avó, que ficou com ele até o último dia, tem 86 anos. Nós estamos preocupados com a saúde dela”, diz Paulo. “Meu avô começou a ficar mal no começo do mês e ninguém poderia imaginar que fosse corona, então minha avó continuou dormindo com ele, comendo com ele, cuidando dele sem proteção”, conta o neto.

Por enquanto, segundo a família, a idosa não apresenta nenhum sintoma que possa ser relacionado ao novo coronavírus. “Mesmo assim, estamos com muito medo. Ela é do grupo de risco. Não queremos perdê-la também”, diz o neto. Com o idoso, moravam a esposa dele, uma filha do casal e o neto adolescente.

“Meu avô era farmacêutico e não deixou de trabalhar, ele era muito conhecido e procurado por suas especialidades de tratamento. Teve contato com muitas pessoas do Brasil inteiro que vinham procurá-lo.”

Os sintomas começaram a aparecer por volta do dia 12, quando procurou atendimento pela primeira vez em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Santos. “Ele teve febre, reclamava de dores de cabeça, tinha diabetes, hipertensão e apenas um dos rins. Era do grupo de alto risco”, conta Paulo.

O idoso foi transferido para o Hospital Emílio Ribas, em Guarujá, e ficou em coma induzido na UTI. “Tinha boletim médico no hospital todo dia, às 18h, e tudo estava controlado. No dia 21, fizeram o primeiro exame, que apontou positivo para Covid-19. Estávamos esperando a contraprova”, conta. O exame de contraprova foi enviado para análise no IAL, em São Paulo. “Na quarta-feira (25) ele faleceu. E o resultado do exame ainda não chegou.”

A família da auxiliar de enfermagem Cleide Renata Marques, de 43 anos, também aguarda o resultado póstumo do exame que deve confirmar ou descartar a suspeita. Ela estava grávida de 13 semanas, apresentou sintomas semelhantes à doença e morreu no dia 22. De acordo com a filha, as amostras foram colhidas no dia 17.

“Ela morreu aguardando o resultado”, diz a filha, Bruna Marques. “E, agora, eu, meu marido e a minha chefe estamos em isolamento, contando com a sorte”, desabafa. De acordo com ela, o marido e a chefe apresentaram febre na noite desta sexta-feira (27).

“Não podemos fazer o exame também, disseram que só a partir do resultado do dela”, conta. “Não estamos trabalhando e ficamos angustiados. Todos tivemos contato direto por dias com a minha mãe.”

‘Desconforto e insegurança’

A técnica de enfermagem Fabiana Ribeiro, mãe de Ana Maria Ferri, de 12 anos, também vive na incerteza enquanto aguarda pelo resultado do exame da filha, enviado ao IAL para análise. Ela está com pneumonia grave em isolamento domiciliar. “Os médicos falaram que demora muito [para o resultado chegar], mas um médico disse que, pelo que saiu na tomografia e no raio-x do tórax, tudo indica que é.”

“A espera nos traz desconforto, traz insegurança, traz medo. É minha filha, mas eu tenho medo porque estava e estou próxima dela. Nos sentimos desprezados. Se realmente for, eu também peguei, né?”

A menina deu entrada na UPA Quietude, em Praia Grande, no dia 20 deste mês. No dia seguinte, foi transferida para o Hospital Irmã Dulce e conseguiu uma transferência para o Hospital Guilherme Álvaro na segunda-feira (23), onde ficou internada na UTI respirando por aparelhos até esta quinta-feira (26). Ela foi diagnosticada com pneumonia grave e recebeu alta quando passou a respirar sem ajuda de aparelhos, mas segue em isolamento domiciliar.

Além dela, uma amiga também teve contato com a filha. “Toda a família quer saber. A mãe da amiga dela também, a menina dormiu aqui em casa dois dias antes dela começar a se sentir mal”, conta.

Secretaria de Saúde do Estado

Leia na íntegra a nota enviada pela Secretaria de Saúde do Estado:

“Conforme orientação do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, a Secretaria de Estado da Saúde está ampliando a rede de diagnóstico e adquirindo insumos extras para a detecção de COVID-19. A pasta estadual já adquiriu 60 mil testes extras para suporte do Instituto Adolfo Lutz, importados dos Estados Unidos. Também está prevista a chegada de mil kits enviados pelo Ministério da Saúde.

Diariamente, o Lutz recebe cerca de 1.200 amostras, processando prioritariamente os casos graves e óbitos, conforme definido pelo Centro de Contingência de SP. Os resultados são enviados ao serviço que solicitou a análise, para notificação ao município de referência.

No momento, o Lutz está estudando a aquisição de mais insumos, para abastecer a rede e dar mais agilidade nos diagnósticos do novo coronavírus.

O Instituto Butantan já instalou, na quarta-feira (25), um novo laboratório para essa finalidade, que agora passa por processo de validação. A previsão é que, ainda na primeira quinzena de abril, comecem as análises de amostras, com capacidade para até duas mil por dia.

A rede de 17 laboratórios já está integrada a 5 núcleos de centros de referência para a coleta de material. A realização de testes foi iniciada e será ampliada com a aquisição de insumos.

Habilitação de outros laboratórios

Além disso, publicou portaria no dia 11 de março, para comunicar aos laboratórios de SP, públicos ou privados, que estão abertas as inscrições para habilitação para realizarem o exame de RT-PCR em tempo real para o vírus SARS-CoV-2. O laboratório precisa ter os devidos registros e alvarás, e deverá respeitar normas técnicas previstas pelo Lutz.

As propostas e documentações serão avaliadas pela diretoria do Instituto para autorização, se tudo estiver em conformidade.”


Amazonia 03 de Junho