Para a maior parte dos eleitores leigos em conhecimentos filosóficos políticos e estratégias de poder, a impressão que se passa nos debates eleitorais é que todos ou quase todos os candidatos possui uma receita mágica para todos os problemas apresentados, mas na verdade, eles usam de manipulações, estratagemas e muita retórica em suas respostas, é um verdadeiro espetáculo, que deixa o homem médio perplexo, com tamanha sapiência desses homens tão cultos e sábios, e ficam todos na torcida, pelo candidato A ou B, e quase como uma espécie de Coliseu. Pobres coitados, não compreendem que aquilo tudo faz parte do jogo da política, e que são usados e que serão descartados, assim que terminar o jogo.

                     No corrente ano de 2020, ocorrerão às eleições municipais em milhares de cidades brasileiras, são vagas para os cargos de prefeito e vereadores, aqui no Mato Grosso, ainda, teremos uma eleição suplementar, pela vaga de um cargo de senador, serão muitos os embates políticos, é uma ótima oportunidade para observarmos o jogo político e suas peças altamente complexas. Para aqueles amantes do espetáculo da arena política, é um verdadeiro deleite, observar o jogo de palavras e retóricas que embriaga os apoiadores dos diversos candidatos.


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                     A politica desde tempos memoráveis, sempre foi uma luta, uma grande batalha, na qual os candidatos usaram e abusaram de todos os métodos, a única coisa que importava era a vitória, e nada mudou dos tempos de Cícero, tudo continua como antes!

                     Para compreendermos melhor as estratégias e recursos utilizados em campanhas, nada melhor do que o clássico livro “ Como Ganhar uma Eleição”, escrito por Quintus Tullius Cícero, obra essa muito pouca estudada nos dias atuais. Por volta do ano 64 A.C, Cícero, notável orador e político romano, embora não pertencente à aristocracia romana, de onde saíam os que iriam dirigir os destinos de Roma, apresentou-se como candidato ao posto de cônsul, o cargo mais importante na cena politica romana, seu irmão Quintus Tullius, general e político, produziu um memorando que denominou Pequeno Manual Sobre Eleições, com o objetivo de ajudar o candidato na campanha que aproximava e que, como tudo parecia indicar, não iria ser nada fácil para o tribuno.      

                        O general Quintus, inicia suas primeiras palavras, enaltecendo as qualidades do irmão Cícero, dizendo que o mesmo já possui todos os talentos que um homem possa adquirir por meio da capacidade intelectual, experiência e trabalho árduo, eu gostaria, por conta do afeto que temos um pelo outro, de compartilhar com você o que tenho pensado dia e noite a respeito da sua campanha que se aproxima. Não que você precise dos meus conselhos, mas esses assuntos podem parecer tão caóticos que às vezes é melhor expor as coisas num mesmo lugar e em ordem lógica.

                         Quintus aconselha; é preciso cultivar com diligência as relações com os homens privilegiados, tanto você como seus amigos devem trabalhar para convencê-los da sua característica tradicionalista, nunca os deixe pensar que você é um populista. Diga a eles que, se você às vezes parece tomar partido do comum do povo numa questão qualquer, é porque urge ganhar a adesão de Pompeu para que ele use sua grande influência a seu favor, ou pelo menos não contra você. Essa regra é válida até hoje, o candidato deve parecer popular, mas na verdade, é apenas um ardil para conquistar os votos do eleitor popular, o no mínimo não conseguir sua empatia.

                         É preciso trabalhar com afinco para obter partidários de um amplo espectro de origens sociais. Os mais importantes são os homens de reputação ilibada, pois mesmo que não o apoiem ativamente eles lhe emprestarão dignidade por mera associação; trabalhe para cativar ex – magistrados, incluindo os que foram cônsules, mas também tribunos do povo, pois isso fará com que você pareça digno de ocupar um alto cargo; faça amizades com qualquer homem que tenha muita influência entre as centúrias e tribos, e depois trabalhe para mantê-lo do seu lado.

                           E assim contínua o general, há três coisas que garantem votos numa eleição: favores, esperança e ligação pessoal, pode-se conquistar eleitores indecisos para a sua causa fazendo-lhes favores, ainda que sejam pequenos, isso vale ainda mais para todos aqueles que você já ajudou muito, é preciso fazê-los entender que, se eles não o apoiarem agora, perderão toda credibilidade pública. Vá encontra-los pessoalmente e os faça saber que, se eles o apoiarem nesta eleição, você lhes deverá um favor. Há certos homens-chave em cada bairro e cidade que exercem o poder, quando cultivarmos relações com tais pessoas, certifique-se de que elas percebam que você sabe o que pode esperar delas, que você reconhece o que fizeram por você e que se lembrará do empenho demonstrado em seu favor. Segundo o mesmo é preciso reconhecer a diferença entre os homens úteis e inúteis em qualquer organização, isso o poupará de investir seu tempo e recursos em pessoas que lhe serão de pouca valia.

                           E nessa toada segue os conselhos do experiente general, que alerta o irmão Cícero de lembrar sempre do nome das pessoas, e cita o caso de Antonius, como esse homem vai conseguir criar amizades se ele não consegue se lembrar do nome de ninguém? Existe algo mais tolo para um candidato que achar que uma pessoa que ele não conhece o apoiará? Seria preciso um milagre de capacidade, renome e realizações para conquistar eleitores sem tomar o tempo de falar com eles.

                         Nessa parte fica evidente a preocupação em conhecer o eleitorado, de preferencia nominalmente, dessa forma o candidato passa mais confiança e credibilidade ao eleitor, quem não gosta de ser lembrado? Quando uma autoridade nos chama pelo nome, no mínimo ganha o nosso respeito e admiração, e era isso que Quintus queria demonstrar de maneira inequívoca para o candidato Cícero, lembrar sempre que possível do nome de todos, ou ao menos da maioria, e esses conselhos são até hoje de extrema valia, não apenas para campanhas políticas, mas sim para a vida cotidiana de todo homem que almeja conquistar respeito e confiança na sua profissão e também em seus negócios.

                           E prossegue os nobres conselhos, trabalhe para obter o apoio de todos os eleitores fazendo amigos de diversos tipos, senadores, homens de negócios e pessoas influentes em todas as classes sociais, converse com cada um deles, envie seus aliados, e mobilize tudo que for possível para lhes mostrar que eles importam para você, volte sua atenção para os grupos de interesse especial, as organizações de bairro e os distritos periféricos. O general o aconselhava a ter uma ampla variedade de pessoas em seu entorno diariamente. Os eleitores o julgarão com base no tipo de turma que você atrai, tanto em qualidade quanto em quantidade. O mesmo menciona que a política é cheia de engodo, trapaça e traição, e lembra as palavras de Epicharmus “ Não confie muito facilmente nas pessoas”. Quintus tentavam alertar Cícero dos perigos que é uma campanha política.

                            Quintus mencionou três tipos de pessoas que se oporão ao irmão: os que você os prejudicou, os que desgostam de você sem nenhum motivo específico e os que são amigos íntimos dos seus adversários. Com aqueles que você prejudicou defendendo um amigo contra eles, seja educado e conciliador, lembrando-lhes que você estava defendendo alguém com quem você tinha uma forte ligação e que você faria o mesmo para eles se fossem seus amigos. Quanto àqueles que desgostam de você sem motivo, tente conquistá-los sendo gentil com eles ou fazendo um favor para eles, ou mostrando que se preocupa com eles. Quanto ao último grupo, dos amigos dos seus rivais, você pode usar as mesmas técnicas, provando sua benevolência até com aqueles que são seus inimigos.

                          Também aconselhava Cícero a lembrar do mestre Cotta, um mestre em campanhas, que dizia que prometeria tudo a todos, a menos que uma obrigação clara o impedisse, mas só cumpriu aquelas promessas que o beneficiavam, era raro ele dizer não a alguém, pois ele dizia que, muitas vezes, a pessoa a quem ele fazia a promessa acabaria não precisando dele ou que ele mesmo viria a ter mais tempo disponível do que pensava para ajudar, afinal, se um político só fizesse promessas que estivesse certo de cumprir, ele não teria muitos amigos. Sempre acontecem fatos que você não esperava, ou não acontecem os que você esperava. As promessas não cumpridas perdem-se muitas vezes numa nuvem de circunstâncias cambiantes, de modo que o ressentimento contra você será mínimo.

                           E por fim o autor estimula Cícero a recordar que tipo de pilantras são seus inimigos e difamar esses homens em toda oportunidade por meio dos crimes, escândalos sexuais e corrupção que atraíram sobre si, difamar seus adversários de todas as formas, não os poupando de absolutamente nada, é basicamente o que assistimos diariamente na sociedade atual, pouca coisa ou quase nada mudou dos tempos antigos, o autor deixa claro, que temos que ter amigos influentes e poderosos, e devemos sempre passar para as massas a ideia de que estamos ao seu lado, que seremos sempre seu defensor ferrenho de quaisquer arbitrariedades, e ao mesmo tempo, mostrar para a elite que tudo não passa de mera encenação, para conquistar os votos da plebe, eis à política real, sem enfeites e utopias.

Josenildo Rodrigues – Professor e Advogado em Rondonópolis.
E – mail:josenildorodriguesadv@hotmail.com