Nesta terça (22) começa a nova temporada da NBA com muitas dúvidas sobre quem é o favorito ao título. É possível argumentar que até oito equipes são postulantes reais. Entre essas equipes não está o New Orleans Pelicans, mas isso não impediu que a liga colocasse o time como uma das atrações da temporada. A razão para tamanho prestígio tem nome e sobrenome: Zion Williamson.

O novato de 19 anos desembarcou na liga com um hype que não se via desde a chegada do super astro Lebron James, em 2003. Vivemos em uma era em que algumas das principais faces, e candidatos a faces, da liga são jovens estrangeiros, como o atual MVP (jogador mais valioso da temporada), o grego Giannis Antetokounmpo, de 24 anos, o camaronês Joel Embiid, de 25 anos, o sérvio Nikola Jokic, de 24, e o esloveno Luka Doncic, de 20. Zion, nascido em 6 de julho de 2000, é, ao mesmo tempo, a grande esperança americana de futuramente assumir esse posto numa NBA mais global do que nunca e também o primeiro candidato a megaestrela nascido nos anos 2000.

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Para entender como o jovem atingiu esse status sem ainda ter jogado um minuto sequer em uma partida oficial da NBA, também é preciso compreender o momento que vivemos. Se fosse possível produzir um astro mundial no laboratório, o resultado seria bem próximo de Zion. Ele une talento e imenso potencial de marketing. Pelo carisma que possui e pelo largo, e fácil, sorriso, ele lembra um pouco outro ícone do basquete que se tornou um símbolo de negócios: Magic Johnson. Além disso, as capacidades físicas de Zion parecem feitas sob medida para a era dos vídeos virais, momentos espetaculares que são compartilhados a esmo porque, além de impressionantes, são simbólicos e simples de entender. As duas jogadas mais plásticas e, por consequência, mais vibrantes que um jogo de basquete pode oferecer são enterradas e tocos. Com uma impulsão absurda e composição física descomunal, é exatamente isso que Zion vem produzindo aos montes desde que ainda estava no high school (ensino médio americano). Zion, dotado de uma força bruta rara para a idade, parecia um adulto jogando contra crianças. Conforme os vídeos de lances incríveis viralizavam, a lenda de Zion aumentava. A camisa usada por ele se tornou acessório de moda, vestida por celebridades.

O próximo passo foi o basquete universitário, que serviu como mais uma passarela para o talento dele. Zion se comprometeu com a universidade de Duke, uma das mais tradicionais por lá. Os jogos da equipe viraram verdadeiros eventos. O clássico contra a universidade da Carolina do Norte teve ingressos com preços na casa dos milhares de dólares e a presença ilustre na plateia do ex-presidente Barack Obama. A essa altura, o próprio Zion já era uma celebridade e não havia mais dúvidas de que seria a joia mais cobiçada no draft da NBA, o dia em que as franquias da principal liga de basquete do mundo recrutam seus novos jogadores. O New Orleans Pelicans, da culturalmente agitada mas basquetebolisticamente não tão ferrenha Nova Orleans, não complicou as coisas e prontamente selecionou o jovem.


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Desde então, as poucas oportunidades para produzir efetivamente em quadra não foram um obstáculo para que ele começasse a fazer dinheiro, para ele e para outras pessoas. Livre das amarras do forçado amadorismo dos atletas universitários, Zion logo assinou com a gigante do mundo dos isotônicos Gatorade. Ele foi disputado a tapas pelas marcas de tênis até fechar com a Jordan Brand, que leva o nome de Michael Jordan e faz parte do guarda-chuva da Nike. As cifras impressionaram: US$ 75 milhões por sete anos de contrato, marca que só fica atrás de um outro novato. Em 2003, Lebron James assinou com a Nike uma parceria que rendeu a ele US$ 87 milhões nos sete primeiros anos na liga. A camisa número 1 de Zion Williamson já é a mais vendida por um estreante na liga, sem que ele ainda tenha sequer atuado em uma partida de temporada regular. E isso provavelmente é só o começo. Com 4,3 milhões de seguidores somente no Instagram, inúmeras marcas ainda devem mirar nessa gigantesca máquina de fazer dinheiro. Há quem acredite que ele se encaminha para se juntar, num futuro já mais distante, ao clube dos bilionários do esporte, acompanhando o já citado Jordan, o golfista Tiger Woods e o boxeador Floyd Mayweather.

Mas ele não chegou tão longe só por carisma e oportunismo. As comparações com Lebron James, se um tanto perigosas, têm certa dose de fundamento. Além das expectativas, ambos chegaram à liga com um jogo predominantemente físico, mas com potencial para se tornar ainda mais único devido a outros aspectos. A NBA atual exige mobilidade e versatilidade. Zion, com 2,01m de altura e 129 kg, já chega como o terceiro jogador mais pesado da liga e vai simplesmente ser mais atlético e forte do que a grande maioria dos adversários, sem perder agilidade. Os 2,08m de envergadura também permitem que ele defenda jogadores dos mais variados tipos físicos. Isso para não falar da impulsão, fôlego e visão de jogo. Mesmo estando visivelmente longe da forma ideal, Zion dominou os adversários nos níveis colegial e universitário porque era simplesmente mais rápido e mais forte que todos. Havia uma certa expectativa de que na NBA fosse diferente, mas as primeiras partidas de pré-temporada mostraram um jogador destemido, que encarou de forma corajosa até o defensor mais premiado da atualidade, o pivô francês Rudy Gobert. As médias dele em quatro partidas (23,2 pontos por jogo, acompanhados por 6,5 rebotes e 2,2 assistências) não diferem muito do que ele alcançou por Duke, o que denota uma adaptação aparentemente tranquila. Os pontos fracos também se mantêm (25% nas bolas de três, 68% nos lances livres). Mas considerando que estamos falando de um atleta de apenas 19 anos, o potencial é muito elevado.

Após passar por uma cirurgia no joelho direito na última segunda (21), a estreia de Zion em um jogo oficial da NBA foi adiada, mas a expectativa em torno do jogador continua alta.

Enfim, o que levei muitas palavras e parágrafos para explicar pode ser resumido em uma frase: vale a pena escapar da briga pelo título de vez em quando para ver o New Orleans Pelicans jogar. Pode ser o começo de algo muito especial.

Fábio Lisboa

Igor Santos – Apresentador do programa Stadium da TV Brasil.