Renato Gaúcho: Obrigado, Grêmio

Técnico completa três anos no clube e recorda momentos marcantes da vida e das três passagens em texto exclusivo e em primeira pessoa ao GloboEsporte.com

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Lucas Uebel/Divulgação Grêmio

Ainda sinto o cheiro do pão quentinho saindo do forno. A disposição que me fazia acordar de madrugada, no frio congelante de Bento Gonçalves, está impregnada no meu DNA. A chave de fenda que me ajudava a apertar os parafusos dos armários de cozinha que eu montava ainda é minha companheira, mesmo que de forma imaginária. Quando olho para trás e vejo aquele moleque atrevido, que passou muita dificuldade sim, mas que sempre foi feliz, tenho certeza que tudo valeu a pena.

Desde cedo eu aprendi que seria preciso muito suor e trabalho para chegar aonde eu queria. Hoje, 57 anos depois, posso me considerar um privilegiado. Em todos os sentidos. Conquistei muito mais do que aquele menino que amassava o pão poderia imaginar.


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Conheci o mundo com a bola dominada no pé direito. Mas, muito mais do que títulos e bens materiais, tenho muito orgulho de ter me tornado um homem vencedor. Digno. Corajoso. Verdadeiro. Honesto. Devo isso aos meus pais. Seu Francisco e dona Maria são exemplos de dedicação, de amor, de bravura. Exemplos de vida. Meu caráter foi moldado por eles. E são os seus valores que eu tento passar todos os dias para a minha filha. E não só para ela. Para os meus jogadores também. Afinal, grande parte deles tem a idade dela ou até menos.

Não sei ser diferente. Sou pai, amigo, psicólogo, conselheiro e também treinador. Um pouco de tudo. A vida me fez assim. Gosto de ajudar as pessoas. Gosto de tirar do rosto delas um sorriso sincero. Gosto de enxugar uma lágrima e fazer da dificuldade uma oportunidade para o crescimento.

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A minha história sempre foi assim. Desde quando eu dividia o meu dia entre o trabalho e o futebol no Esportivo, de Bento Gonçalves, escondido dos meus pais. Aliás, o futebol sempre foi a minha vida. Sempre tive certeza de que esse era o meu destino. Bati de frente com meu pai, mas segui o meu coração. Hoje, tenho certeza que ele, lá de cima, mesmo sendo colorado, tem orgulho de mim.

Falar do futebol é como falar de um grande amor. Tudo que eu tenho na vida eu devo a ele. Aliás, todas as noites, antes de dormir, rezo e agradeço por tudo que conquistei na vida. Sou e sempre serei muito grato ao futebol. E não falo apenas das “coisas” que consegui por causa da bola. Falo, principalmente, das pessoas que conheci por causa dela.

“As pessoas costumam pensar que a vida de quem está no futebol é só coisa boa. E não é assim. Tenho 12 irmãos e não fui no casamento de nenhum deles”

Como é que eu vou esquecer do Seu Verardi e do Dr. Fábio? Eles me acolheram como filho quando eu cheguei no Grêmio. Eles fazem muita falta. Olhar para eles e saber que estão ali me faz falta. Mas tenho certeza de que tanto um como outro estão me guardando lá de cima. Assim como meu pai e minha mãe.

Mas tudo na vida tem os dois lados. As pessoas costumam pensar que a vida de quem está no futebol é só coisa boa. E não é assim. Tenho 12 irmãos e não fui no casamento de nenhum deles. Aniversários dos sobrinhos muito menos. Fim de semana? Só sei o que é isso nas férias. Ainda tem a distância da família, os dias e mais dias que passo longe da Maristela, da Carol… Mas foi o futebol que me permitiu ajudar minha família e tantas outras pessoas. É como eu disse: a moeda tem os dois lados.

O futebol te faz criar laços muito sólidos. E assim é minha relação com o Grêmio. Minha família é toda gremista. Só meu pai era colorado e ficou muito brabo quando eu vim para o Grêmio. Mas depois o coração dele foi amolecendo. Uma pena não ter visto o show do Mundial…

Trazendo para os dias de hoje, essa relação que o futebol traz pode ser exemplificada na minha amizade com o presidente Romildo. Tenho muito carinho por ele e todos os dias eu procuro retribuir a confiança que ele sempre teve no meu trabalho. É um dirigente diferenciado. Tanto é que até estátua ele me deu.

Depois de passar tantos anos dentro de campo, resolvi que ficaria um pouco longe desse mundo quando me aposentei. Parei de jogar em 1997 e fiquei mais perto da família, dos amigos, da praia que tanto amo… Mas sabe como é, uma vez dentro do futebol, sempre dentro do futebol.

Sabia que um dia, mais cedo ou mais tarde, eu iria treinar o Grêmio. As duas primeiras vezes foram complicadas. Em ambas a situação era bem delicada, com ameaça de rebaixamento. Mas sempre acreditei na minha capacidade e no grupo de jogadores. E os resultados estão aí. Nas duas vezes colocamos o Grêmio na Libertadores.

Renato beija a testa do presidente do Grêmio, Romildo Bolzan — Foto: Lucas Uebel / Grêmio, divulgação

O ano de 2010 foi muito marcante para mim. Além de ter sido o da minha primeira passagem aqui no Grêmio, foi o ano em que perdi a minha mãe. Meu porto seguro, meu anjo, minha referência. Um pedaço de mim se foi. Mas me lembro como se fosse hoje de um pedido dela. Ela queria que eu ajudasse o Grêmio de alguma forma. Acho que lá no céu ela deve estar bem feliz com o que vem acontecendo nos últimos três anos.

Quando voltei ao Grêmio pela terceira vez, em 2016, coloquei na minha cabeça que o clube tinha de pôr um ponto final no jejum de títulos nacionais. Não pode um clube gigante como o nosso ficar 15 anos nessa secura! Consegui passar isso para os jogadores e aos poucos os resultados foram chegando.

“É bom demais ganhar a Libertadores. Já tinha ganho como jogador e bati na trave como técnico do Fluminense. Quis o destino que essa conquista viesse com o Grêmio, o clube do meu coração”

Logo de cara veio a Copa do Brasil. E recheada de drama desde o primeiro momento. Nunca esqueço o jogo contra o Athletico, o da minha estreia. Marcelo Grohe foi gigante. Falhou no tempo normal, mas salvou nos pênaltis.

Depois veio o Palmeiras, em dois jogos também bem complicados, mas que deram muita confiança para o grupo. Na semifinal contra o Cruzeiro e na final contra o Galo conseguimos impor nossa maior qualidade individual e coletiva. Foi bom demais dar aquela volta olímpica.

Em 2017 me doeu muito perder aquela disputa de pênaltis para o Novo Hamburgo, no Campeonato Estadual. Não poderíamos nem ter chegado nas penalidades. Com todo respeito ao Novo Hamburgo.

Mas, de alguma forma, aquela derrota começou a forjar o que viria ali na frente: o tri da América. Olha, é bom demais ganhar a Libertadores. Já tinha ganho como jogador e bati na trave como técnico do Fluminense. Quis o destino que essa conquista viesse com o Grêmio, o clube do meu coração.

Mas tivemos momentos complicados também nesses últimos três anos. Além desse jogo contra o Novo Hamburgo, posso falar da semifinal da Libertadores contra o River. Perdemos fora de campo a vaga para a final. O gol foi com a mão e isso não pode passar batido pelo VAR. Sem falar no comportamento do Gallardo. Assim como ele, eu sempre vou defender o meu grupo. Mas não se pode passar por cima das regras e acabar prejudicando o clube e o próprio grupo.

Agora, de todos os momentos ruins, o que me doeu mais aconteceu recentemente. Perder a vaga na final da Copa do Brasil, da maneira que perdemos, para o Athletico-PR, me doeu demais. Tínhamos uma vantagem muito boa e a vaga não poderia ter escapado. Sem falar no pênalti logo no início do jogo que o árbitro não deu. Fiquei 48 horas sem falar com os jogadores para deixar a poeira baixar. Mas esse grupo é bom demais. Chegamos a Belo Horizonte e tive uma conversa muito boa com eles. E a reação veio rápido, como sempre acontece.

“Perder a vaga na final da Copa do Brasil, da maneira que perdemos, para o Athletico-PR, me doeu demais (…) Fiquei 48 horas sem falar com os jogadores para deixar a poeira baixar”

Não tenho do que reclamar. Nesses três anos que estou aqui, conseguimos tudo que um clube precisa para ser feliz. Jogamos um futebol bonito, temos resultados e ainda colocamos dinheiro na conta do clube. É só olhar a relação de grandes jogadores que apareceram das categorias de base e que foram negociados. E vem muito mais por aí. É tudo que um clube precisa: desempenho, títulos e caixa cheio.





-Patrocinador-