Professor desmistifica chuva ácida e diz que produção de calcário neutraliza fenômeno em Cuiabá

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Foto: Rogério Florentino/Olhar Direto

Você provavelmente já deve ter ouvido falar que não pode tomar banho nas primeiras chuvas, após um período de estiagem, por conta da acidez e seus danos à saúde. Em Cuiabá já são cerca de 130 dias sem chuva. O professor de Climatologia do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), doutor Rodrigo Marques, em entrevista, desmistifica o fenômeno e afirma que produções de calcário na região neutralizam os componentes que provocam o fenômeno.

Rodrigo Marques explica que a chuva é acida quando as concentrações de alguns gases presentes nas precipitações estão muito superiores àquelas encontradas naturalmente, o que causa uma diminuição do pH para níveis fora do normal para chuvas.


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“Naturalmente existe na atmosfera o ácido carbônico que é fraco, e a chuva tem seu pH natural em torno de 5,6, então tecnicamente falando, a chuva é ácida quando seu pH é inferior a 5,6. A formação de chuvas ácidas é uma consequência que a poluição atmosférica provoca no ambiente, e pode ser produzida tanto de fontes naturais (emissão de fumaça vulcânica, por exemplo) ou artificiais (emissões provenientes de indústrias ou automóveis, por exemplo)”, afirma.

Segundo ele, os primeiros estudos sobre os efeitos da chuva ácida foram elaborados pelo químico inglês, Robert Angus Smith, quando em 1872 se impressionou ao observar como as peças metálicas que ficavam expostas ao ar livre se oxidavam e deterioravam com muita rapidez.

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“Quando se queima o carvão ou quando os derivados de petróleo– combustíveis – são queimados (em motores de automóveis, caminhões, aviões, termoelétricas, etc.) o enxofre se oxida e quando ocorre a reação com a água da chuva, pode se formar o ácido sulfuroso, que é um ácido fraco, ou o ácido sulfúrico, um dos principais vilões causador da acidez da chuva”, diz.

“Reações semelhantes ocorrem com os óxidos de nitrogênio (NOx), produzidos a partir da decomposição de animais e vegetais pelas bactérias existente no solo, pela ação dos raios durante tempestades, emissões industriais, queimadas, queima de combustível em automóveis e termelétricas. Quando esses óxidos de nitrogênio reagem com a água, forma o ácido nitroso, que é um ácido fraco, e o ácido nítrico, um ácido forte (importante causador da acidez da chuva)”.

Poucos registros de chuva ácida em Cuiabá

O professor analisou ao longo de cinco anos cerca de 300 eventos de chuva e encontrou poucos registros de acidez. Porém nada de alarmante ou que justifique que não se pode tomar banho porque ela pode  provocar danos à saúde dos seres vivos.

“O primeiro ponto que achamos interessante foi verificar que os pH mais baixos (ou as chuvas mais ácidas) ocorreram do meio para o fim da estação chuvosa, e não nas primeiras chuvas no final da estação seca. Isto porque desde criança sempre ouvia e via nos meios de comunicação que não devíamos tomar banho nas primeiras chuvas porque eram ácidas. E quando fomos verificar, não era bem assim que acontecia”, disse.

Outro ponto verificado foi que as chuvas mais acidas (com pH mais baixos) ocorreram do meio para o fim da estação chuvosa, e não nas primeiras após o final do período de seca. “O menor valor do pH da chuva que registramos foi 4,13 em 24/10/2007, e o maior 8,21 em 11/11/2009, também registramos 4,21 em janeiro de 2005”.

A tendência observada no estudo e de que quanto mais dias sem chuvas, o pH tende a ser maior. Isso porque na região não há uma produção de energia por termoelétrica a carvão, e também não há um parque industrial com capacidade de emitir poluentes que irão formar ácido sulfúrico ou nítrico na atmosfera.

“E outro ponto é que temos uma produção importante de calcário nas proximidades, e estas partículas oriundas do calcário formam carbonatos e bicarbonatos que acabam neutralizando a acidez da atmosfera, o que ajuda a entender os resultados que encontramos”, finaliza.





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