Com sete mortes no EUA, cigarro eletrônico é proibido no Brasil, mas vira febre entre adolescentes

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Criado por um farmacêutico chinês em 2003, o cigarro eletrônico se tornou febre, principalmente entre os mais jovens. O que muita gente não sabe que ele é proibido no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde o dia 19 de agosto de 2009, através da RDC 46/2009. Apesar disso, é facilmente encontrado na internet em lojas físicas de Cuiabá. A indústria do tabaco tenta reverter à proibição, mesmo após cerca de 530 internações por doenças pulmonares e sete mortes confirmadas nos Estados Unidos associadas ao uso de vaporizadores com sabor. Em São Paulo, o publicitário Pedro Ivo Brito, de 29 anos, teve um quadro de pneumonia agravado, de acordo com seus médicos, por ele ser usuário de cigarro eletrônico, o vape.

Médica pneumologista e coordenadora do programa Inspirar de combate ao tabagismo da Unimed Cuiabá, Keyla Maia, explicou que o cigarro eletrônico tinha como objetivo inicial fornecer somente nicótica. No entanto, ele contém outras substâncias que estão sendo gradativamente identificadas como, por exemplo, o glicerol, usado principalmente na composição de produtos de higiene pessoal.


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“Recentemente, foi liberado nos EUA por ter menos substâncias que o cigarro normal, com certeza tem menos substâncias, por sinal, mas justamente por essa liberação a gente pode assistir uma espécie de experiência. O que aconteceu nos EUA? Uma certa quantidade estupenda de adolescentes começaram a fazer o uso. Ele é muito atrativo. Primeiro porque ele é um dispositivo eletrônico, né?  Segundo por ser liberado, inclusive para adolescentes. O terceiro por ter vários sabores, o que facilita o uso da substância”, disse.

“O fato é que depois desse período de uso o que está acontecendo agora são internações hospitalares. Algumas delas até com intubação orotraqueal. Ele vem desenvolvendo uma grave pneumonia, diferente da usual, principalmente porque acontece em pacientes jovens. E já tem o relato de pelo menos seis [até período da entrevista] óbitos em relação a isso”, acrescenta.

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A partir dessa observação,vários estudos estão sendo feitos e até mesmo a proibição é cogitada pelo Governo Americano. A manutenção ou não da proibição dos cigarros eletrônicos no Brasil, bem como os prós e contras em relação à comercialização desse tipo de produto, foram discutidos em Brasília e no Rio de Janeiro, durante audiências públicas da Anvisa dedicada exclusivamente ao assunto.

De acordo com o especialista em regulação e vigilância sanitária da Gerência de Tabaco da Anvisa, André Luiz Silva, o processo da Agência é técnico e sempre baseado em dados científicos e análise profunda do tema, em um contexto de transparência e previsibilidade.

A Anvisa identifica esses produtos tecnicamente como dispositivos eletrônicos para fumar, mas a discussão sobre o tema envolve também o uso de outros mecanismos, como o tabaco aquecido.

Para a médica pneumologista, a indústria tenta reverter essa proibição e aponta o dispositivo como uma redução de danos nos fumantes adultos. “Mas na vida real isso não acontece. Na vida real, quem começa usar é o adolescente e, inclusive, com design, todo modernoso, eletrônico, colorido. O objetivo dele [a indústria] é que esse adolescente passe a ser um dependente químico. Os cigarros eletrônicos têm mais nicotina que o cigarro comum. São rapidamente viciantes”.

“O objetivo deles é aumentar as vendas. O Brasil, até 1988, aproximadamente, tinha quase 40% da população fumante. Hoje são 9,3%. A indústria está perdendo bilhões porque nós somos um case de sucesso no mundo na sucessão do tabaco. O Brasil é o 2º país do mundo com melhores resultados nas campanhas de saúde pública na sucessão do tabaco”, afirma.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos forneceu o primeiro resumo demográfico dos afetados: quase três quartos são homens, dois terços têm entre 18 e 34 anos e 16% têm 18 ou menos. Ainda não há muitos dados de internações no Brasil associados ao dispositivo, mas o uso por jovens e adolescentes é notório. Keyla Maia citou um caso que atendeu em seu consultório, de um adolescente levado pelo próprio pai, que não aceitava que o filho usasse o cigarro eletrônico.

“Ele queria usar o cigarro eletrônico e o pai não concordava. Eu conversei com ele e depois pedi para o pai nos deixar sozinho. Fomos conversando e pude explicar tudo que isso que estou de falando. Pelo o que ele me falou, na visão dele de jovem, é extremamente comum hoje. Você compra na internet, vai no camelódromo, tem vários teores de nicotina. Não teve dificuldade nenhuma. Aí entra a questão de fiscalização. Enfim, o uso não tem dificuldade e a tendência é se usar cada vez mais, principalmente com essa crença de que ele não é nocivo”.

Juul

O Juul é um cigarro eletrônico com design simples, com duas partes, sendo uma bateria e um pod preenchido com e-líquido. “Ele tem uma dose fixa de nicotina de 59 miligramas. Isso é maior que qualquer maço de cigarro”, afirma a médica pneumologista.

“o Jool é um tipo de vaper, que o vaporizador. Eles são chamados de vaper porque a indústria diz que ele não produz fumaça, produz vapor. Não vamos fumar, vão vaporizar. Só assim, junto com a nicotina, que o objetivo é criar dependência, vão outras substâncias que hoje estão sendo demonstradas serem lesivas para o pulmão. Então essa “vamos vaporizar”, é o que eles colocam como bacana para estimular o consumo”, pondera.

Entidades fazem alerta

A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia emitiu uma nota de alerta aos profissionais da área. A carta cita que os dispositivos estão sendo estudados, como vários agentes e óleos diluidores como aditivos, pesticidas, opioides, venenos, metais pesados, toxinas. O uso de vaporizadores para inalar maconha e outros canabinoides tem sido admitido também por pacientes. Também é recomendado procurar um médico em caso do surgimento de tosse, dispnéia e dor torácica.

O Conselho Federal de Medicina também alerta que os médicos que não devem recomendar o uso dos e-cigarros,seja para ajudar o fumante na tentativa de parar de fumar ou, na tentativa para reduzir o número de cigarros fumados, pois não há evidências científicas que sustentem o uso dos e-cigarros em ambas as situações.





-Patrocinador-