Diretor do ICV rebate Bolsonaro e diz que acusação contra ONGs é cortina de fumaça

0
Foto: Reprodução

“Cortina de fumaça”. É assim que o diretor executivo do Instituto Centro de Vida (ICV), Renato Farias, classifica a fala do presidente Jair Bolsonaro (PSL), ao insinuar que organizações não governamentais (ONGs) podem estar por trás de queimadas na região amazônica para “chamar atenção”. A declaração do presidente foi feita nesta quarta-feira (21), depois da suspensão de parte do repasses estrangeiros ao Fundo Amazônia, que entre outras coisas, capta doações para em ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento.

Renato Farias é biólogo, com mestrado em Química Ambiental, doutorado em Aquicultura e pós-doutorado em Aprendizagem Institucional pela Universidade da Flórida. Morador há 40 anos da cidade de Alta Floresta (791 km de Cuiabá) e a frente da direção do ICV há dez, ele considera a fala uma ‘cortina de fumaça’, diante dos problemas reais enfrentados na Amazônia.  “É até difícil de comentar essa cortina de fumaça que é colocada em cima de todos os problemas reais que estão acontecendo por aqui, na Amazônia”, lamentou.


Continua depois da publicidade

“Recursos como do Fundo Amazônia, são inclusive para trabalhar contra o fogo, estão sendo pedidos para serem devolvidos aos países de origem.  Recursos com agendas muito positivas, incluídos na própria questão do negócio. Tudo isso dá uma sinalização que a gente pode estar entrando em um cenário muito bom. Muito distante desta fala de que as ONG’s estão querendo chamar atenção. A gente trabalha justamente na preservação deste cenário, incluindo isso ao desenvolvimento local”.

O Instituto começou a atuar em Alta Floresta ainda na década de 90, momento que o número de queimadas estava elevado na região. “A gente teve um trabalho intenso aqui, tanto é que em dois anos, foram reduzidas as queimadas em mais de 90% naquele período. É uma das lutas que a gente tem e teve por muito tempo e pelo jeito vai ter que voltar a ter”.

-Continua depois da publicidade ©-

Para ele, fala como as de Bolsonaro dão um sinal negativo e demonstram que “tudo pode”. “E quando tudo pode nessas regiões, acaba criando esse cenário que está voltando a acontecer agora. Por exemplo, as 4h30, 5h da tarde, o sol está ficando amarelo como há muitos anos não acontecia”, acrescenta.

O Brasil teve 72 mil focos de incêndio em 2019, ou seja, 80% a mais do que o ano de 2018. A metade fica na Amazônia. Conforme o presidente, o Governo precisa fazer o possível para que esse tipo de crime não aumente. Entretanto, pontuou que a gestão retirou dinheiro que seria repassado a ONG’s, o que justificaria o aumento do número de incêndios.

“O crime existe, e isso aí nós temos que fazer o possível para que esse crime não aumente, mas nós tiramos dinheiros de ONGs. Dos repasses de fora, 40% ia para ONGs. Não tem mais. Acabamos também com o repasse de dinheiro público. De forma que esse pessoal está sentindo a falta do dinheiro”, declarou

O diretor do ICV conta que existe um grupo de pessoas trabalhando dentro da própria instituição em busca de projetos atrelados ao desenvolvimento local com uma agenda positiva. Para isso, é necessário provar que as pautas são benéficas para o território em que se trabalha.

“Um dos próprios financiadores do ICV seria também o Fundo Amazônia, como pode ser fonte internacional, como pode ser editais nacionais. É um grupo de pessoas trabalhando dentro da instituição em busca de projetos atrelados ao desenvolvimento local e a uma agenda positiva local. A sobrevivência das ONG’s entra em uma escala de concorrência de editais, doações, a partir de pautas, desde que a gente prove que essas pautas são benéficas para aquele território que a gente trabalha”, explica.

“Nosso trabalho está relacionado à agropecuária, ao agronegócio, a agricultura familiar, a municípios. Ações como essas, nessas falas relativamente implícitas, ou totalmente implícitas, acabam desviando totalmente da realidade, essa realidade que a gente encontra dia a dia aqui”, salienta. O ICV atua com programa de negócios sociais, incentivos econômicos para conservação, direitos socioambientais, na transparência ambiental, nos núcleos de Geotecnologias, administrativo e financeiro.

Os trabalhos na região de Alta Floresta começaram por volta da década de 90. Segundo Renato, moradores mais antigos da cidade lembram que na época não era possível fazer pousos e decolagens de avião no município, nos meses de julho, agosto e setembro, em decorrência da fumaça provocada pelas queimadas.

“Atrelado a isso, tinha também a consequência na saúde das pessoas. Muita gente doente, com doenças respiratórias, muitas crianças inclusive. Essa é outra preocupação que a gente tem também. A gente volta a ficar preocupada com os efeitos destas queimadas, fumaça e o efeito que isso pode ter nas crianças”.

Na época, ao lado do Poder Municipal e o comércio local, foi possível diminuir as queimadas urbanas e rurais. “Isso atrelado a uma política publica Estadual e Federal, daquele período, os resultados foram muito bons. Os sinais deram pra ir na contramão disso”, lembra.

“Uma das agendas que a gente tem é da transparência da informação. O momento que a gente está trabalhando, se discute muito sobre corrupção ou coisas do tipo, a informação transparente, de acesso a sociedade é uma forma de também trabalhar em sanar eventuais ilegalidades”, afirma.

Alvo do Governo Bolsonaro,  o Fundo Amazônia tem como objetivo é promover projetos para a prevenção e o combate ao desmatamento e também para a conservação e o uso sustentável das florestas na Amazônia Legal. Ele está preparado para receber doações de governos estrangeiros e empresas nacionais e está se estruturando para receber doações de instituições multilaterais, de organizações não governamentais e também de pessoas físicas.

Bolsonaro acredita que os incêndios tem como objetivo enviar uma mensagem ao exterior. “O fogo foi tocado, pareceu, em lugares estratégicos. [Tem] imagens da Amazônia toda. Como é que pode? Nem vocês teriam condições de todos os locais estar tocando fogo para filmar e mandar para fora. Pelo que tudo indica, foi para lá o pessoal para filmar e tocaram fogo. Esse que é o meu sentimento”, afirmou.

Apesar das diversas afirmações, ele disse que não há nenhuma investigação e que não há registro desses tipos de casos.





-Patrocinador-