Após recordes de pódios, desafio é achar o meio termo entre o oba-oba e o “Pan não vale nada”

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Foto: Ricardo Bufolin / Panamerica Press / CBG

Nos Jogos Pan-Americanos, o Brasil exerceu seu papel de potência, bateu recordes, conquistou medalhas inéditas e alcançou o segundo lugar no quadro de medalhas. Isso tudo tem que ser comemorado e exaltado, mas o oba-oba não pode tomar conta de atletas, dirigentes e nós da imprensa. Quando o assunto é Olimpíada, ainda não somos uma potência. Fazemos parte dos países emergentes, que ficam na “segunda página” do quadro de medalhas.

Mais importante que os resultados conquistados, o Pan melhorou a imagem do esporte brasileiro. Mesmo vivendo uma crise financeira que acarreta em corte de gastos em todas modalidades, o país sai revigorado de Lima. Há tempos a delegação não voltava de um grande evento com um resultado tão superior à expectativa inicial. E volta feliz. Não teve confusão política, polêmica com dirigentes, nem atletas envolvidos em casos extra-esportivos.

Foi um Pan tranquilo, sem pressão de sediar uma Olimpíada em breve, como foi em 2015 e 2011, nem de abrigar o próprio evento, como foi em 2007.

O Pan tem seus dois lados. De um, conta com a presença de mais de cem medalhistas olímpicos, estrelas do esporte mundial estiveram em Lima, casos do nadador americano Nathan Adrian, da velocista jamaicana Elaine Thompson, do boxeador cubano Julio Cesar la Cruz, do decatleta canadense Damian Warner entre muitos outros que fazem valorizar o Pan.

Do outro lado, sabe-se que os Estados Unidos não leva seus principais atletas em modalidades como tênis, basquete, remo e ciclismo, e forma equipes fortes, com campeões olímpicos, mas não titulares no atletismo e natação. O Canadá dá menos importância ainda, abrindo mão de seus atletas titulares também no judô e canoagem. E quase um quarto das medalhas em jogo são em modalidades ou provas que não estão no programa olímpico de 2020.

Esportivamente, o Brasil viu o surgimento de talentos como Alison Santos dos 400m com barreiras, Larissa Pimenta, do judô, e Milena Titoneli do taekwondo, a confirmação da força de nomes como Beatriz Ferreira, do boxe, Darlan Romani, do arremesso do peso, Marcelo Chierighini, dos 100m livre, e a coroação de nomes já supercampeões, como Isaquias Queiroz, Rafaela Silva e Martine Grael e Kahena Kunze da vela.



E teve medalha que não foi de ouro, mas que traz uma ótima perspectiva para Tóquio 2020. Andressa Fidelis foi vice-campeã do lançamento de disco com uma marca que lhe daria medalha na Rio 2016, Keno Machado só parou no boxe diante do tetracampeão mundial Julio Cesar La Cruz, e o time do 4x100m medley anotando um tempo muito bom na natação para levar a prata.

Tivemos decepções. Claro que tivemos. Seria estranho se, no meio de quase quinhentos atletas, não encontrássemos quem saiu triste. A derrota na semifinal da seleção masculina de handebol complicou, e muito, a chance de classificação para Tóquio. O supercampeão Arthur Zanetti errou (sim, ele erra) e saiu com uma prata amarga. O maior ciclista da história do país, Henrique Avancini viu o ouro escapar com um pneu furado. O medalhista olímpico Erlon Souza desmaiou no meio da prova de canoagem e nem completou o percurso. A equipe de tênis de mesa ficou fora da final.

O Comitê Olímpico do Brasil (COB) não trabalha com meta de medalhas para os Jogos de Tóquio 2020. Mas não há dúvida que o país pode superar os 19 pódios conquistados na Rio 2016, principalmente pela entrada de novas modalidades no programa, como surfe e skate. E o Pan, apesar de todos os poréns citados nesse texto, deu mais uma mostra que o sonho de duas dezenas de pódios em Tóquio é real.