Santa Catarina possui o mais avançado parque agroindustrial brasileiro da avicultura e da suinocultura. Essa fabulosa estrutura gera uma riqueza econômica de mais de 1 bilhão de aves e 12 milhões de suínos por ano, sustenta mais de 150 mil empregos diretos e indiretos e gera bilhões de reais em movimento econômico. Insumo essencial para o funcionamento desse gigante, o sucesso ou o fracasso da cultura do milho reflete diretamente na economia catarinense.

A grande e grave questão que se coloca todos os anos é: como abastecer Santa Catarina de milho – são necessários mais de 6,5 milhões de toneladas por ano – se o Estado tem um crescente e aparentemente insuperável déficit? O cenário é de franca decrepitude. Em 2005, 106 mil produtores rurais catarinenses cultivavam 800 mil hectares. Nesses 14 anos, a área plantada foi se reduzindo celeremente. O milho é um cereal que impacta profundamente na realidade do agronegócio catarinense. Em 2018, foram cultivados pouco mais de 300 mil hectares de lavouras. A produção estadual, que já atingiu 4 milhões de toneladas/ano (2007/2008), caiu para 2,5 milhões na safra 2018/2019.

A conjugação de uma série de fatores contribuiu para chegarmos a esse ponto, com redução tão drástica da produção. Os agricultores migraram para a soja, um produto com grande liquidez no mercado de commodities, menor custo de produção e melhor remuneração final. Outro fator é que 40% do milho que SC produz se destinam a silagem, portanto, não sai da propriedade e é utilizado na nutrição da pecuária leiteira. As deficiências de armazenagem constituem um problema adicional.

Santa Catarina é o 8º Estado em produção de milho, porém o 2º maior consumidor do País. O Estado obtém o cereal em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, executando uma absurda operação rodoviária com mais de 100 mil viagens ao ano em percursos de até 2.000 quilômetros, ligando o Sul ao Centro-Oeste brasileiro.

Entretanto, surgiu há quatro anos uma articulação transfronteiriça entre Brasil, Argentina e Paraguai que permitirá a compra de milho paraguaio com a implantação da chamada Rota do Milho. O produto será adquirido nos Departamentos de Itapúa e Alto Paraná (Paraguai), passará pelo Porto paraguaio 7 de Agosto, no município de Carlos Antonio López (Itapua), atravessará o rio Paraná em balsas, entrará na Província Argentina de Misiones pelo Porto de Piray no município de Piray e seguirá até a divisa com o Brasil, sendo internalizado pelo Porto Seco catarinense de Dionísio Cerqueira. A vantagem é evidente: trocar-se-á um percurso de 2.000 quilômetros, por outro, muito mais curto, de apenas 350 quilômetros.

A boa notícia é que essa solução começou a se concretizar. A balsa que fará a travessia internacional da Rota do Milho, ligando os portos fluviais paraguaio e argentino chegou e já está operando em caráter experimental. O equipamento tem capacidade para transportar 14 caminhões de 37 toneladas ao mesmo tempo. Os portos estão recebendo adequações e equipamentos como rampas, balanças, scanners etc. Muitas instituições trabalharam para esse desiderato: o Sebrae/SC, as entidades do agronegócio, os parlamentares e o presidente do BRIPAEM (Bloco Regional de Intendentes, Prefeitos, Alcaides e Empresários do Mercosul) e prefeito de Chapecó Luciano Buligon – que coordena as tratativas na esfera inter-regional. Dentro de 60 dias – tempo necessário para as formalizações de praxe – a Rota do Milho começa a operar regularmente. As agroindústrias catarinenses poderão acessar o milho produzido no Paraguai com menor dispêndio e em melhores condições de competitividade.



Os governos finalmente se sensibilizaram e acreditaram nessa alternativa de integração econômica e desenvolvimento do turismo, que, afinal, é o objetivo do Mercosul. Inicia aqui, possivelmente, um novo eixo de desenvolvimento e integração transfronteiriça entre Brasil, Argentina e Paraguai. A Rota do Milho será altamente benéfica para as cadeias produtivas da avicultura, suinocultura e pecuária leiteira.

José Zeferino Pedrozo presidente Faesc e do Senar/SC