ONG mostra ‘apagão médico’ e morte de três crianças em 11 dias no Xingu

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Foto: Avener Prado/Repórter Brasil

O jornalista Diego Junqueira, da ONG Repórter Brasil, divulgou durante a madrugada deste domingo (2) uma reportagem sobre problemas de atendimento na área de saúde pública no Parque Indígena Xingu numa região de transição entre o cerrado e a Floresta Amazônica. Conforme noticiado, houve um apagão médico e três crianças morreram durante intervalo de 11 dias. A saída dos cubanos do programa Mais Médicos, em novembro, e o corte de verbas do Ministério da Saúde causaram blecaute no atendimento à população indígena.

Confira a reportagem:

Não havia médicos na manhã de 2 de abril para atender Milena Kaiabi, que nascera na aldeia Paranaíta, no Parque Indígena do Xingu, norte de Mato Grosso. Com 4 dias de vida, a recém-nascida estava chorosa, febril e sem vontade de mamar, mas a enfermeira deslocada até a comunidade disse ser nada grave. A bebê morreria menos de um mês depois na cidade de Sinop, a 200 km de distância, por suspeita de meningite e vítima da “confusão dos brancos”.

A expressão é usada por Mairawê Kaiabi, principal liderança de seu povo no Xingu, para retratar as políticas públicas para saúde indígena no Brasil. O assunto nunca foi prioridade em Brasília, “mas nesse novo governo piorou muito, piorou de vez”, ele diz. A saída dos cubanos do programa Mais Médicos, em novembro do ano passado, e o corte de verbas da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ambas decisões da gestão do presidente Jair Bolsonaro, agravaram a já precária assistência nos territórios indígenas.

Além de médicos, faltam remédios como antibióticos e anestesias, o que compromete atendimentos básicos e demanda custosos resgates aéreos, fluviais e terrestres até as cidades. O combustível também é insuficiente para as emergências. Por conta dos cortes, funcionários da saúde com salários atrasados abandonaram seus postos – ou trabalham voluntariamente. O caos parece instalado nos territórios indígenas, mas quando eles recorrem à cidade, o SUS pode ser ainda mais cruel.

As mortes de três bebês kaiabis no intervalo de 11 dias em abril revelam como o Brasil cuida da saúde de suas crianças indígenas. Jaqueline Kaiabi, de 2 meses, morreu de pneumonia no Hospital Geral de Cuiabá, mais de um mês após entrar na infinita espera por uma cirurgia cardíaca. Nare Pedro, de 2 anos, morreu após sua luta contra a desnutrição esbarrar em uma pneumonia maltratada. Já Milena viveu por apenas 28 dias. Se no parque indígena não havia médicos para ela, nas ricas cidades mato-grossenses não tinham vagas nos hospitais.



Sentado sobre um saco de castanhas na aldeia onde Milena nasceu e está agora enterrada, Makatu Kaiabi, 23 anos, diz em voz baixa que não entende como perdeu a filha. Seu relato, no idioma kaiabi, é traduzido por um indígena que mora na região. Ao lado da mulher, Severina, 16, e do primogênito Tairu, 2, Makatu conta que a filha continuou “irritada” nos dias seguintes à consulta com a enfermeira.

A família decidiu então levar a recém-nascida até o polo Diauarum, referência de saúde no médio Xingu. Milena ficou internada por cinco dias, segundo o pai, sem passar por médicos nem por exames mais complexos. Sem diagnóstico.

Uma segunda enfermeira, recém-chegada ao Diauarum com a equipe de vacinação, reavaliou a bebê e pediu sua transferência imediata. Milena chegou a Sinop aos 11 dias de vida em estado grave, com infecção generalizada, segundo boletim médico.

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