Curso de Braille capacita professores e comunidade para auxiliar deficientes visuais

Com 40 horas de duração a qualificação foi realizada na Bibllioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça, de 01 a 15 de abril

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O Sistema Braille é um código de escrita utilizado por deficientes visuais com combinações de pontos que formam letras, algarismos e sinais de pontuação. À primeira vista, a complexidade de combinações parece dificultar o aprendizado. Mas na capacitação realizada pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT) os participantes descobriram que, para aprender a ler e a escrever em Braille, só dependiam de vontade, memorização e prática. E, claro, de instrutores com domínio do sistema e da metodologia de ensino.

Ministrado pelo servidor público Manoel Pinto de Moraes, o curso de sistema de leitura e escrita em Braille é um dos programas de qualificação oferecido todo ano pela Biblioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça, um dos equipamentos administrados pela Secel.


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Manoel atua há mais de 31 anos na Biblioteca e, além do jeito prestativo de ensinar, possui uma peculiaridade que contribui para o ensino do método. Ele é cego desde os seis anos de idade. Com a ajuda da estagiária de pedagogia Jucinéia Lopes, Manoel multiplica o conhecimento que obteve ainda criança quando foi alfabetizado pelo Sistema Braille no Instituto Sul-mato-grossense para Cegos.

“Eu sinto que estou levando um importante conhecimento pra frente. Muita gente já passou pelo curso nesses anos que estive por aqui e é um orgulho saber que estou ajudando professores e universitários a atenderem as necessidades e desenvolverem as habilidades de seus alunos. E o curso está sendo muito bom, eles estão conseguindo pegar, eles conseguiram aprender os números, as letras, todos vão sair bem preparados”, celebra Manoel.

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Manoel Pinto de Moraes em atendimento na Biblioteca Pública Estadual – Foto: Menghini – Gcom/MT 

Com 40 horas de duração, de 1º a 15 de abril o curso capacitou professores da rede de ensino básico e comunidade em geral para a mediação do acesso à leitura, estudo e pesquisa a pessoas com deficiência visual. Dados do censo 2010 do IBGE mostram que em Mato Grosso mais de 452 mil pessoas possuem alguma dificuldade visual e mais de 5 mil não conseguem enxergar de modo algum.

Para o participante Jefferson Luiz de Farias, professor da rede municipal, a decisão de se inscrever no curso de braile foi motivada pela vontade ajudar o contingente de crianças que possuem deficiência visual. Professor Farias, como é mais conhecido, é também intérprete de libras da rede estadual de ensino, fato que facilitou o processo de memorização do sistema Braille. No entanto, enfatiza que há somente um impacto inicial para identificar cada letra e número, e que o segredo é decorar.

“Depois de quase 15 dias de aula conseguimos escrever em braille com facilidade. O processo de leitura é um pouco mais difícil principalmente pelo fato de não sermos deficientes visuais, nós nos guiamos pela visão, mas com o  tempo e prática vamos aprender a ler por meio do tato”, explica Farias.

Professor Jefferson Luiz de Farias praticando as atividades em braille desenvolvidas durante o curso  Foto: Ahmad Jarrad – Secel/MT

Com o uso da reglete, uma régua com espaços chamados celas contendo duas colunas de três pontos cada uma, e da punção, um material com ponta em aço para a marcação, os participantes do curso descobriram como usar os pontos para fazer 63 combinações diferentes e formar palavras e números da simbologia utilizada na escrita e leitura de uma pessoa não cega. Também aprenderam que, com a reglete, a escrita deve ser feita da direita para a esquerda, porque as palavras são lidas pelo relevo que é formado ao se afundar a punção no papel.

Durante a capacitação, Manoel sempre pergunta se alguém tem alguma dúvida, oferece algumas dicas e lembra os espaços e sinais de pontuação. Solícito e com uma didática que simplifica a instrução, ele consegue repassar o conhecimento do código Braille sem dificuldade.

A estudante do 3º ano de pedagogia da UFMT, Isabella Cunha, resume o sentimento da classe quanto aos ensinamentos do Manoel. “É um instrutor maravilhoso, a gente entende tudo que ele explica, e o fato da gente ter um contato diretamente com um deficiente visual ajuda mais ainda”, elogia.

Isabella, assim como a maioria participante do curso, teve interesse em estudar o Sistema Braille para ajudar outras pessoas, seja na vida pessoal ou profissional.  Todos estavam em busca de assimilar as especificidades da alfabetização por meio desse sistema para realizar com êxito a tarefa de auxiliar o próximo.

O Sistema Braille

Idealizado por Louis Braille, na França, em 1819, o sistema é um processo de escrita e leitura baseado em 64 símbolos em relevo, resultantes da combinação de até seis pontos dispostos em duas colunas em espaços chamados celas na reglete.

O sistema Braille permite a representação de letras, algarismos e sinais de pontuação. É utilizado por pessoas cegas ou com baixa visão. Para escrever, usa-se a linha da direita para a esquerda, fazendo o relevo. Na leitura se vira o papel para que o relevo fique na superfície e assim possa ser sentido/lido pela pessoa cega ao passar a mão sobre os pontos.

Atualmente o Braille está difundido pelo mundo todo e simboliza um importante avanço para a acessibilidade das pessoas com deficiência visual.

A Biblioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça disponibiliza mais de 2 mil volumes em Braille, bem como a digitalização e conversão em áudio (MP3) para atender as pessoas com deficiência visual em seus estudos e pesquisas.

-Patrocinador-