Último militar eleito presidente do Brasil por voto direto foi escolhido há 73 anos e era cuiabano

0
Foto: Arquivo

Um militar é eleito presidente do Brasil com pouco mais de 55% dos votos após disputa que envolveu proliferação de notícia falsa, transferência de apoio do maior líder político que não pôde participar do processo eleitoral, em um caldo cultural que se formou em uma onda de anticomunismo e pautas de cunho moral. Estamos falando de 2018 ou 1945? São semelhanças que aparecem em um oceano de diferenças que separam a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) do último presidente militar eleito por voto direto: o cuiabano Eurico Gaspar Dutra, em 1945.

Em janeiro de 2019, Bolsonaro será o 10º militar a assumir a Presidência do Brasil, dando continuidade a uma história que começou a se escrever com Marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891), militar que se tornou proeminente na Guerra do Paraguai (1864-1870), teve papel central na Proclamação da República e foi o primeiro presidente do país após a queda da Monarquia. Pelo voto popular, além de Bolsonaro e Dutra, também ascendeu ao poder o Marechal Hermes da Fonseca (1910-1914), sobrinho de Deodoro, que derrotou ninguém menos que Rui Barbosa. Representante da situação na República Velha, Hermes não teve grande dificuldades para superar o candidato da oposição em um sistema eleitoral nada confiável.


Mas voltando aos últimos militares eleitos no voto popular. Se desta vez o líder com maior capital político (e também rejeição) do país, Luis Inácio Lula da Silva, esteve do lado do candidato derrotado, Fernando Haddad (PT), e transferiu o quanto pôde seus votos, contaminando-o também com a aversão que parte do eleitorado nutre por sua figura, em 1945 Dutra contou com as bases conquistadas por Getúlio Vargas.

Há 73 anos, o Brasil enxergava um horizonte democrático após 15 anos da Revolução de 30 que depôs Washington Luis e conduziu ao poder Getúlio Vargas. Dutra era aliado do ex-presidente, foi seu ministro da Guerra, mas também esteve presente na deposição do Vargas, após suspeitas de que ele não deixaria a Presidência como o anunciado. Maior líder político vivo no país à época, Getúlio relutou antes de declarar apoio ao sucessor. A poucos dias da eleição, Vargas acabou manifestando apoio e Dutra liquidou a fatura.

  Recém-nascido é abandonado dentro de caixa de sapatos com o corpo coberto de formigas em MT

Anticomunismo e “fake news”

Dutra era um militar anticomunista. E naquela eleição, não importa o vencedor, o presidente acabaria sendo um militar anticomunista. Do outro lado, estava Brigadeiro Eduardo Gomes, que tinha bandeiras semelhantes ao rival. O que lhes separa, na prática, era o getulismo de um e o antigetulismo do outro. Candidato pela UDN, partido com forte ligação com classe média urbana, o Brigadeiro era muito católico e mais identificado com as elites que o cuiabano. Para ajudar na campanha, em tempos em que redes sociais era inimagináveis, senhoras tradicionais ajudavam-no vendendo doces feitos com chocolate e leite condensado. Daí o nome do brasileiríssimo brigadeiro.

Mas não era por falta de redes sociais que não existiam o que chamamos hoje de “fake news”. Dutra aliás, se beneficiou muito com uma. Semanas antes da eleição, em discurso no Teatro Municipal no Rio, Eduardo Gomes declarou que dispensava votos do que classificou como “desocupados que apoiam o ditador”. A versão espalhada exaustivamente nas rádios, veículo de massa da época, foi a de que o Brigadeiro declarou que não precisava dos votos dos “marmiteiros”, o que seria uma crítica aos trabalhadores, que comiam marmita, a camada popular mais próxima de Getúlio Vargas.

 





| deixe sua opinião |

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui