Quem são os fundadores da miniusina de castanhas na Bacia do Rio Xingu

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Foi Dona Francisca da Chaga Araújo, dona Chaga, como é conhecida na Comunidade do Rio Novo, quem iniciou junto com seu marido Aguinaldo Rodrigues a instalação da miniusina de castanha, hoje sob cuidado dos seus filhos Marlon e Raimunda.

Dona Chaga representa bem a popualação local. Seu avô materno veio do Piauí para trabalhar nos seringais e pelo lado paterno seu parentesco é indígena, dos povos Kuruaya e Xipaya.“Meu pai era índio, minha mãe era branca e a gente é mestiço. Meu pai era índio; foi pego no mato. Ele era Xuruaya e o pai dele era Xipaya”, conta.


A avó materna veio do Maranhão e trabalhava com o coco do babaçu, técnica que passou de geração em geração. O começo do trabalho de beneficiamento de produtos extrativistas começou justamente com o óleo do babaçu.  “Eu tirava o óleo de coco no pilão, tirava o coco, botava pra secar ia lá tirava o óleo; é difícil para nós comer esse óleo de soja”, conta ela.

Além da retirada do óleo da amêndoa, Dona Chaga e seu marido Aguinaldo Ribeiro foram até Uruará, para conhecer uma experiência de agricultores locais para fazer farinha com mesocarpo – parte da semente do babaçu, rica em fibras, cálcio, ferro, minerais e nutrientes. Foi assim que começaram a estruturar a miniusina do Rio Novo.

Ainda hoje a lógica de negociação entre o extrativista e a cantina remete a uma forma antiga de relação econômica estabelecida na Terra do Meio com a ocupação dos seringais para produção de látex durante a Segunda Guerra Mundial.

O sistema de aviamento se baseia em um registro de créditos e dívidas pelos quais as famílias de beiradeiros – como são conhecidos os moradores das margens dos rios nessa região – acessam mercadorias industrializadas e adiantamento em dinheiro que são pagos posteriormente com a entrega do extrativismo local, como a castanha e a pesca.

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A prática foi adotada nos barracões onde os seringueiros negociavam a borracha que produziam em troca de produtos fornecidos pelos patrões. A saída de mercadorias de forma adiantada e a entrada de borracha eram registradas em um caderno e convertidas em saldo ou dívida para o seringueiro ao final da safra.

Com o declínio da produção da borracha, outras formas de extrativismo ganharam força na região, como a castanha-do-pará, a pesca e a captura de animais silvestres, especialmente felinos, para a venda do couro, prática conhecida na região como “caçada de gato”, cujo comércio é proibido por lei desde 1967.

“Tudo era na troca, moço. Se você pegasse um peixe, trocava por sabão, açúcar, café, óleo. Era o peixe, era a castanha, que a seringa já tinha acabado. A gente trabalhava de primeira era com seringa, era com caçada de gato”, lembra dona Chaga.

Com a saída dos seringalistas da região, a troca passou a ser feita com barqueiros. Conhecidos como regatões, esses comerciantes itinerantes sobem os rios da região vendendo mercadorias e comprando produções locais, especialmente o peixe para vender aos centros urbanos de Altamira e São Félix do Xingu.

O período conhecido como segundo ciclo da borracha, que retomou a produção nos seringais na década de 1940, marcou a ocupação da região com a vinda de trabalhadores trazidos pelo Estado, principalmente do Nordeste. Os beiradeiros têm suas origens ligadas a esses trabalhadores nordestinos e aos aos povos indígenas tradicionais ocupantes dessas áreas – Arara, Araweté, Asurini, Juruna,, Kayapó, Kuruaya e Parakanã e Xipaya.

Edição: Carolina Pimentel