O ser racional

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O filósofo Jürgen Habermas debruçou sobre a racionalidade humana. Afirmou a existência de duas formas: a instrumental e a comunicativa. Pergunta-se: socialmente, qual delas é a mais adequada para temas como cidadania e democracia?
A instrumental é calculista. A análise paira sobre custo e benefício. Nesta, a criatividade fica mitigada. O pensar se restringe à capitalização.
Assim, é possível valorar e denominar pessoas como organizadas psicologicamente e economicamente.
Na racionalidade comunicativa, percebe-se a criatividade como baliza. A comunicação é trocada entre pessoas, como experiências boas para acrescentar na convivência diária. O intercâmbio de argumentos da suporte para o desenvolvimento de ideias e ideais que venham a contribuir, de fato, para o desenvolvimento a se alcançar.
Indubitavelmente, a reclamação geral é que a vida passa sem a necessária percepção humana. Logo, a rapidez no agir, a constância do “andar na carruagem”, tira a capacidade criadora.
O importante, nessa senda, passa a ser a produtividade. A tecnocracia é a palavra de ordem, como aritmética desejada. Pensa-se no concretizar. Órgãos Públicos trabalham a produtividade como eficiência a ser alçada.
Na antiguidade, como tempo melhor utilizado, sobrava lugar a pensamentos e obras de arte reconhecidas mundialmente.
Quanto tempo Newton refletiu para deduzir as suas importantes leis da física? O mestre Ataíde, em Ouro Preto, que levava mais de dez anos para concluir as suas belíssimas artes barrocas? O valor a se reconhecer era diverso do atual. Na música, era impensável letra sem mensagem à sociedade. E hoje?
Temos desvalorizado a segunda forma definida por Habermas de racionalidade. Sem dúvida, é a forma mais democrática de sobreviver. O agir coletivo e com olhar voltado à compreensão do que seria mais viável, dá vez a episódios onde a pressa, a falta de reflexão, deixa o “modo robô” ativado.
Tudo isso me faz lembrar de Camus: “Não existe pátria para quem desespera e, quanto a mim, sei que o mar me precede e me segue, e minha loucura está sempre pronta. Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero: eles sabem que o amor existe. Eis porque sofro, de olhos secos, este exílio. Espero ainda. Um dia chega, enfim. ”
É por aí.
GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é juiz em Cuiabá


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